Real Time Web Analytics Violência Semântica: Abril 2009

quarta-feira, 15 de abril de 2009

O Absurdo


Tinha a faca, bem afiada e pouca reluzente. Seu fraco brilho não era sedutor o suficiente. Mas, tinha a certeza de que sua lâmina era o suficiente para dilacerar minha pele pouco a pouco. Começaria - no primeiro movimento de corte - a remover o curto e frágil tecido epitelial para depois alcançar o conjuntivo onde a invaginação deixaria de ser branca e passasse a ser vermelha.

Pensava em como seria o jorro de sangue ao atingir uma artéria. No momento, o coração acelerado daria impulso para espirrar sangue ao longe. Provavelmente em meio a dor e desespero acabasse cortando um nervo também, o que me atenuaria a dor e agonia.

Queria, ridículamente, que alguém tivesse pena de mim. Como se a atenção de outro humano curasse toda a minha angústia. Nesta hora podia enxergar a pequenês de todo e qualquer medíocre e frágil ser humano.

Passei então a rir, enquanto chorava, ao perceber o quanto minto pra mim mesmo sacralizando amizade, o amor, as pessoas. Esta era a hora de uma força maior dar um sinal. Chegava a urrar de gargalhadas quando me percebia pedindo a Deus que me ajudasse.

Nada, é apenas eu, minha angústia e meu ódio enquanto a conversa fútil e sem sentido de meus pais na outra sala ecoava.

Aproximei a lâmina em meu punho, experimentei movê-la alguns centímetros para saber como é a sensação. O mísero corte neste movimento incrivelmente doeu mais do que uma fraturação óssea e nem chegou a ultrapassar o fino epitélio, era apenas um arranhão, porém um alicerce da morte.

Mais lembranças e nostalgias - fúteis frente ao absurdo - retornaram em visões doentias, voltei a chorar, não tinha ódio agora, tinha apenas pena de mim mesmo e medo. Medo de continuar vivo.

Questionei-me do quanto era covarde me comparando com tantas pessoas que passam dificuldades. Nesta ótica, de fato era eu apenas um garoto mimado e com muito tempo de sobra para pensar e assinar a própria angústia. Contudo, uma certeza eu tinha, um consolo social não me evita a morte eu mesmo a fazendo ou não. E covarde, pensei, é aquele que aceita a morte como um verme coagido, independente de sua hierarquia social. Porque o que faz este covarde aceitar a morte não é a coragem e sim seus fantoches e sagrados consolos.

Já era hora, já estava trancado no quarto a tempo de mais. Meus pais a qualquer momento poderiam entrar com perguntas curiosas e dispensáveis.

Aproximei novamente a faca perto do pequeno corte e deixei que as lágrimas afogadas impregnassem meu rosto. Tive uma sensação de ódio imenso que momentaneamente se converteu em medo e tudo o que eu queria era largar aquela faca.

Eu tremia. Levantei do chão, coloquei a faca no seu esconderijo de sempre e deitei na cama vislumbrando o teto branco. Não podia me matar, não conseguiria. Mas - pensei - não é porque decidi não me matar que me tornarei resignado. Pelo contrário: se a vida é ausente e desprovida de qualquer sentido, aqueles que ousarem de aplicar novos instrumentos de intensificação desta ausência se tornarão meus inimigos.

E, considerando minha existência viva, não permitirei que me façam sofrer além do que já sofro. Procurarei todos os objetos de usurpação da minha liberdade, até aqueles inesperados. Esta é a minha face verdadeira, a face do nada, sem a mentira ubuesca que todos vocês aceitam.

É, por isso, espontâneamente, pelo meu próprio sofrimento, esclarecido pela minha auto-subversão, que sou anarquista.

Nihil Est


- Crowley






sexta-feira, 10 de abril de 2009

A Arte da Angústia


Beber da própria angústia
É regurgitar as falácias
Aquelas que assombram
Com o vazio apaixonante
De sonhos da infância.

Sei que a morte não é o fim
Pois nascer nunca foi o início
Também sei que as verdades cruas
- Aquelas da angústia
É o nada, a única verdade.

Mas sei de uma fórmula
Que insiste em parecer provisória
Ela às vezes é distorcida
Mas quando clara
Sacraliza a vontade de viver.

Vide a solidão!
Que dilacera sinuosamente
A ânsia de esperança

Acredito sim
Que do outro lado me espera
O cotidiano das contradições que canta
A música da felicidade compulsória abdicada
- A eterna angústia.

Vide a solidão!
Que dilacera sinuosamente,
A ânsia de esperança.

- Crowley

segunda-feira, 6 de abril de 2009

O Mendigo e o Ladrão


Ao largo da alegre avenida de vão e vêm os transeuntes, homens e mulheres, perfumados, elegantes, insultantes. Junto a um muro está o mendigo, a mão pedinte adiantada, nos lábios trêmulos a súplica servil.

- Uma esmola, pelo amor de Deus!

De vez em quando cai uma moeda na mão do pedinte, que este mete rapidamente no bolso emitindo louvores e reconhecimentos degradantes. O ladrão passa, e não pode evitar o olhar de desprezo sobre o mendigo. O pedinte se indigna, porque também a indignação tem pudor, e refuta irritado:

- Não tem vergonha, vadio, de ser ver frente a frente a um homem honrado como eu? Eu respeito a lei: não cometo o crime de meter a mão no bolso alheio. Meus passos são firmes, como os de um bom cidadão que não tem o costume de caminhar nas pontas dos pés, no silência da noite, por habitações alheias. Posso apresentar o rosto em todas as partes; não recuso o olhar de um policial; o rico me vê com benevolência e, ao largar uma moeda em meu chapéu, bate em meu ombro dizendo-me, "Bom homem!".

O Ladrão abaixa a aba do chapéu até o nariz, faz um gesto de nojo, observa em seu redor, e replica ao mendigo:

- Não espere que eu me envergonhe em frente a ti, vil mendigo! Honrado tu? A honra não vive de joelhos esperando arrastar o osso que haveria de roer. A honradez é altiva por excelência. Não sei se sou honrado ou não; mas te confesso que tenho vergonha na cara para suplicar ao rico que me dê - pelo amor de Deus - uma migalha da qual me furtou. Violei a lei? Isto é certo; mas a lei é coisa muito distinta da justiça. Violo a lei escrita pelo burguês, e essa violação contém em si um ato de justiça, porque a lei autoriza o roubo em prejuízo do pobre; isto é uma injustiça; e quando arrebato ao rico parte do que roubou dos pobres, executo um ato de justiça. O rico te bate o ombro porque teu servilismo, tua baixeza medíocre, a ele garantirá o desfrute tranquilo daquilo do que a ti, a mim, e a todos os pobres do mundo nos têm roubado. O ideal do rico é que todos os pobres tenham alma de mendigo. Se fosses homem, morderias a mão do rico que te lança restos de pão. Eu te desprezo!

O ladrão cospe e se perde na multidão. O mendigo alça os olhos ao céu e geme:
- Uma esmolinha, pelo amor de Deus!!!

(Este não é um texto meu, e não tenho a fonte, se alguém souber a fonte cite-a, por favor)

- Crowley