Real Time Web Analytics Violência Semântica: Agosto 2010

domingo, 22 de agosto de 2010

Sendo Sincero na Reflexão Sobre a Violência

Caminha-se para tempos fatalmente obscuros. Não se sabe até onde o capitalismo poderá nos levar; até onde esse tédio assombroso e angustiante - seguido por brutalidades cotidianas de sobrevivência - continuará em pé. Conjuntamente com um sistema demoníaco assustadoramente universalizado - globalizado para os tecnocratas - segue-se uma névoa de paradigmas aparentemente inabaláveis, protegidos institucionalmente e, por acaso ou não da decadência e desesperança, pela frágil e manipulável inconsciência humana.

A busca pela identidade, o desespero para se encontrar em mundo de representações e vazios interiores, guiam quase todos para o abismo da mentira. A insinceridade generalizada de todos para consigos mesmos reflete o que o poder tem trabalhado incessantemente para se perpetuar. A mentira começa ao acordar, olhando-se no espelho e vendo um fantasma auto-paparicado intensamente durante todo o dia: nega-se o medo e a insegurança. Vistas grossas à tudo que for possível enquanto conflitos se alastram em algum lugar "longe de mim e da minha vida". Ignora-se de forma feliz e falaciosa a morte e suas verdades. A possibilidade do acaso de levar
tudo ao desastre pessoal é colocado em um baú trancado pela chave da resignação e da personalidade moldada em lava.

Em um sistema onde a desigualdade é critério para o progresso não se pode esperar nada além de um fim apocalíptico. A certeza de que caminhamos para o desastre da humanidade está claro - inclusive para os não esclarecidos que fingem não ver. A estupidez ganha transcendência incalculável: ela está inserida em todos os atos cotidianos. Busca-se assumir papéis - seja de advogado, médico ou de nada - que, como uma casca da urina ejaculada pelo poder, não faz sentido, não existe coerência ou algum fio de vida. O medo se encontra escondido nas mentiras que traçam o dia-a-dia da humanidade. Tacha-se, portanto, de terrorismo tudo aquilo que traz o amor sincero pela verdade. Sejamos verdadeiros: é terror tudo aquilo que nos traz egoistamente medo. E o medo do homem moderno é precisamente o acaso. A tranquilidade e mentira se resumiu em uma dualidade absurda em que nos consideramos como feitos de cristais ao mesmo tempo que consideramos os outros feitos de aço. Trememos de pavor ao ouvir tiros ao mesmo tempo que esquecemos que o outro também treme. Esta aqui a jaula do que podemos chamar de escravo do novo mundo: um espectro de pavor negado da morte.

O sentimento de inferioridade se propaga até as últimas consequências. Os caminhos são ditados por idéias cada vez mais concretizadas no mundo físico. Idéias estas, que esperam que nos entusiasmemos e nos sacrifiquemos, tal como Stirner nos elucidou em sua obra - formando, assim, o escravo do medo e da preguiça. O esforço real só está presente quando o é para reforçar a auto-afirmação de um papel social assumido. Desta forma, este escravo pode conseguir alguns fragmentos do que chama de felicidade e atenção dos seus semelhantes. Regozija-se de alegria falaciosa - convencido apenas para si mesmo - quando seus senhores os concedem um minúsculo pedaço de seu poder. Seja o chefe de um departamento empresarial, um professor, um amado, um amigo (sendo este dois últimos os piores dos senhores); eternizando, portanto, sua submissão mórbida imersa em mentiras e auto-paparicação.

Segue-se, no cotidiano, um medo particular - o crucial ponto fraco destes: o crime. Tudo aquilo que o Estado julgou como imoral torna-se pavor. As verdades mal digeridas são conservadas em um calabouço e transformadas em paradigmas intocáveis. Como se não bastasse o consumo de culturas e ideologias, agora o escravo quer consumir matéria e transformá-la em parte de seu corpo em existência física. Observa com enorme admiração seus bens, desejando engolí-los, fazer deles real parte de si. Apesar de tudo, sabem da fragilidade desta posse: o homem sincero consigo mesmo está pelas ruas, armado e rindo do pavor dos escravos. Nesta hora é que se revela o que, provavelmente, a sociedade tem negado por mais de um milênio: não somos espíritos, somos carne e osso. Inclusive, ousarei dizer, nossos pensamentos são matéria e logicamente previsíveis, tudo o mais é ilusão e descomprometimento com a verdade - se me permitem os filósofos: é preciso acabar de uma vez com a filosofia se não for para reconstruí-la. Pois, desde o início da mesma, considerou-se e teve, como plano de fundo, o maior absurdo do universo: a idéia de
ζωή - vida.

Levando em conta esta perspectiva sincera a filosofia teria, desde sempre, sido uma auto-paparicação pois, não se fala ou escreve o que dessacraliza a própria filosofia. Todo argumento funda-se buscando sempre a valorização e perpetuação da filosofia, mesmo quando a mesma, em sua reflexão, não pode chegar à respostas que aponte precisamente em caminho da verdade. Procurar interpretar o mundo por inúmeras metafísicas pode ser realmente elegante e fino, contudo nem sempre será válido para a conjuntura física da realidade. O conceito de vida sempre esteve longe da honestidade: nos parece que a filosofia só existe enquanto se pode conceder valor à vida. Por essa inferência pode-se concluir, sem delongas, que até hoje a filosofia não buscou a investigação da totalidade, mas apenas à um fragmento ilusório dela: a perspectiva emocionalmente humana. Trata-se, portanto, de recriar uma filosofia que exista ausente da existência humana pois, as vistas da real totalidade não vêm de olhos humanos, mas dos olhos do universo. É preciso, antes de mais nada, abandonar por completo conceitos emocionais e qualquer outra perspectiva que seja culturalmente humana.

Continua...

- Benny

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

A Dissimulação e o Círculo Social Decadente


Frequente é encontrar, mesmo quando já adultos, caricaturas facilmente percebíveis entre grupos de amigos. Imersos em um teatro de contradições e tagarelices, consolidam um círculo de apegos mútuos enjaulados por convenções inteligíveis para a lógica. São reflexos de tudo o que há de deprimente no mundo. Ainda assim querem respeito e consideração mesmo daqueles que inevitavelmente estão imensamente evoluidos na compreensão do Todo. Não será preciso dizer que essas pessoas costumam, com enorme prazer, guardar e gastar enorme parte de seu tempo com a vida dos outros. Com julgamentos milimétricos dos atos alheios, transformam hipócritamente, em questão de segundos, uma pessoa em um monstro malígno. Como se geneticamente cada um fosse destinado ao bem ou ao mau. A empatia é jogada em um buraco enterrado pela insinceridade consigo mesmos(as), enquanto que a verdade se encontra em algum lugar que nunca estiveram - foram absorvidos pelos seus próprios desejos confusos e futurísticos, projetados ao céu como espéctros, ou melhor, fantasmas.

Nos mais jovens, a dissimulação ganha um caráter "descolado". O desespero presente na busca de uma identidade reflete precisamente a preguiça e o medo para culminar em algo vazio, desprovido de coerência. Todo mundo quer ficar bem na fita: tenta ser diferente, mas no fundo é essencialmente a decadência - juventude medrosa do caralho. Quando se esforçam muito passam a comer capim, isto é, absorvem os vultos de um conhecimento fragmentário enquanto se alimentam de submissões. Enxergar a totalidade das coisas passa a ser temido, pois se, por acaso - ou não - se pegam em silêncio meditando, mesmo que sem querer, tratam logo de recuperar as imagens espectrais que engoliram durante o dia - conversas desnecessárias; nostalgia de uma antiga paixão; vontades mentirosas; ansiedades burocráticas e etc - caso não, se sentem mal, quando não se sentem "caretas" por simplesmente usarem seus já atrofiados neurôneos sufocados por fazerem questão de dormir pouco ou alienados e restingidos para a incompreensível necessidade de tirarem fotos de si mesmos o tempo todo.

Metade, quando não mais, da semana destes inglórios jovens é usada para intensificar e ampliar seu círculo social decadente. A amizade aqui é motivo de melodrama, fiscalização e competição: é excluido aquele que não consegue fascinar os outros de seu círculo. Fascinação aplicada pelo padrão de beleza, jeito de falar, atitudes infantis e capacidade de ser fotogênico. Os "feios", isto é, os que não tiveram sorte de nascerem belos ou se aproximarem do padrão de Justin Bieber, Johnny Depp, Ana Hickmann, Angelina Jolie ou mesmo de Axl Rose sofrem frequentemente de depressão - chegando recorrer à psiquiatras - por não terem atenção suficiente para cobrir o embrutecimento dos estudos ou da sobrevivência no mundo totalitário capitalista. Os que quando não muito "feios", mas que não são descolados, não têm o jeito de se comportar e falar "fascinantes", que não são populares, que não têm tatuagens, que não fazem a barba, que não se depilam ou que não são fotogênicos acabam sofrendo o mesmo pato. Eis aqui o sentido de vida destas criaturas nojentas, medrosas e preguiçosas: viver a cada dia, imersos em mentiras, como se nunca fossem morrer.

De final, não poderia deixar de citar uma mente fértil:

"A alegria e despreocupação da nossa juventude se deve, em parte, ao fato de estarmos subindo a montanha da vida e não vermos a morte que nos aguarda do outro lado." - A. Schopenhauer.¹

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¹ A Cura de Schopenhauer - Irvin D. Yalom


- Benny