Real Time Web Analytics Violência Semântica: Janeiro 2011

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Breve Reflexão Sobre a Medicina Segundo a Perspectiva de Foucault


A medicina urbana desenvolvida na França – já existindo uma medicina de estado na Alemanha – surge na tentativa de erradicar, se não ao menos de aliviar, sobretudo, os problemas sanitários por meio de vigilância exaustiva de doentes e controle da insalubridade das ruas. Esta medida adotada tinha, porém, no fundo, como objetivo, não o bem-estar geral da população em uma perspectiva impessoal sem tomar partido de uma concepção particular de saúde, mas tinha intenção de solucionar os problemas de força de trabalho e a vulnerabilidade patológica da classe burguesa que ficará claro com a medicina social desenvolvida na Inglaterra.

Na Inglaterra a medicina praticada ganha o caráter exigido pelo avanço do capitalismo. O pobre já não era visto tão somente como um fragmento da paisagem poluída da cidade, mas como um verdadeiro vetor de doenças. Além disso, as nascentes indústrias passavam cada vez mais a necessitar de mão-de-obra ativa entre a população, isto incluía não só idade e sexo para o tipo de trabalho, mas disposições fisiológicas para o exercício. Assim, toma-se lugar a vacinação, as vistorias clínicas e o monitoramento geral da saúde pública controlando efetivamente o corpo das classes mais pobres e tendo como objetivo em primeiro plano, contudo em oculto, o controle e vigilância político-moral-mediativa das classes marginalizadas.

O processo histórico do desenvolvimento da medicina que acabo de esboçar, segundo a sugestão de Foucault, projeta nos dias atuais seus princípios de controle e vigilância das classes abastadas, sobretudo sua idéia de saúde. É possível – e relativamente fácil - colocar em paralelo as exigências do modelo de produção capitalista de ontem e de hoje com o comportamento cotidiano relacionado à saúde em nossos dias. A extrema preocupação com o peso, hábitos narcóticos e comportamento sexual evidenciam as ressonâncias entre a indústria e o que ela exige como mão-de-obra. A reprodução excessiva de uma ética da saúde construída pelos instrumentos do poder econômico ditam os costumes que devem ser valorizados (dietas, anti-tabagismo, e etc) segundo a relação indivíduo-mão-de-obra-indústria. Essa publicidade exaustiva de injeção de valores – como é possível perceber nas campanhas televisivas de anti-tabagismo, por exemplo - busca não só a consolidação de um conceito fixo de saúde pelo conjunto estado-economia, mas, também, faz parte da consolidação geral da doutrina moral desejada pela soberania econômica. Desta forma, por meio de uma subjetividade tendenciosa sobre o que é saúde, a medicina de nossos dias, assim como outros aparatos de dominação ideológica do poder, pertence, necessariamente, ao conjunto de fatores da sociedade que perpetuam e ditam as verdades subjugadas ao progresso capitalista.

- Benny

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Alguns dos Problemas do Realismo Metafísico - Segundo Putnam

Na foto: Putnam e Kripke

1 – Introdução: O Realismo Metafísico


Podemos caracterizar a doutrina defendida pelo realismo como aquela que defende, em geral – porém em níveis diversos -, a existência do ser independentemente do pensamento. Isto é, trata-se de uma oposição ao idealismo onde o pensamento é o arquiteto do mundo (nesta doutrina também encontramos diferentes níveis). Contudo, o realismo que iremos abordar aqui é especificamente o chamado realismo metafísico ou tradicional encontrado nos textos de pensadores e filósofos como Bertrand Russell e Galileu Galilei. Esta doutrina, assim como o realismo em geral, defende a existência de uma realidade independentemente de nós e vai mais além, afirmando que as propriedades inerentes aos objetos da realidade já estão estabelecidas de uma vez por todas e prontas a serem descobertas. Além disso, a verdade, neste contexto, só existe enquanto uma cópia fiel da essência, ou melhor, da realidade “em si mesma”. Portanto, o filósofo deve buscar uma objetividade absoluta considerando a objetividade pela experiência uma tentativa falha e falaciosa.

Hilary Putnam, adepto do realismo interno, procura identificar problemas do realismo metafísico, sobretudo tratando dos seus “excessos”. Segundo Putnam, a possibilidade da objetividade absoluta é seguramente fantasiosa e ingênua além de ser um entrave ao desenvolvimento epistemológico. Uma vez que não temos “a visão segundo os olhos de Deus” (objetividade absoluta), devemos buscar a objetividade nas possibilidades que nos são seguramente dadas, como a experiência. Assim, torna-se necessário livrar-se dos excessos metafísicos onde a capacidade dos sentidos e de sua percepção é menosprezada e delinear novos limites onde é operável a razão em sua razoabilidade legítima.


2 – O Conceito de Verdade e o Alcance da Objetividade.


Segundo o realista metafísico imaginário de Putnam: “O mundo é como é, independentemente dos interesses de quem quer que o descreva.”. A premissa que se toma neste realismo é a de que existe de fato a possibilidade de apreender um objeto em sua essência - isto é, a coisa-em-si e suas propriedades intrínsecas - por meio de uma descrição que represente uma cópia fiel da realidade. Ora, Putnam não discorda da existência de uma realidade independente de nós, contudo, alerta para a impossibilidade de uma descrição tal como os realistas metafísicos desejam ao passo que, segundo a perspectiva de Putnam, nenhuma descrição foge do aparato conceitual essencialmente humano, ou seja, não há possibilidade de uma objetividade sem os olhos humanos. Nesta perspectiva, Putnam critica os excessos da “fantasia” metafísica que parte da alegação de “...que existe uma totalidade de Formas, ou Universais ou ‘propriedades’, estabelecida de uma vez por todas, e de que todos os significados possíveis de uma palavra correspondem a uma dessas Formas, ou Universais ou propriedades. A estrutura de todos os pensamentos possíveis é estabelecida de antemão – estabelecida pelas Formas.”. A idéia deste mundo não só independente de nós, mas, também, acabado e pronto para ser descoberto levanta sérios problemas a custa de se perder, além do mundo familiarmente apreensível, o próprio mundo almejado pelos realistas metafísicos, o mundo “tal-como-é-de-fato”. O mundo humanamente concebível, no argumento de Putnam, não tem um alcance que ultrapasse a experiência além de, também, ser auxiliado sempre por descrições necessariamente não-independentes – o arcabouço teórico/pessoal de uma mente sempre deixará como plano de fundo da cognição os interesses de quem descreve.

Os problemas surgidos com as restrições do realismo metafísico quanto a objetividade acaba por levantar um impasse crucial para Putnam sobre a verdade. O conceito de verdade no sentido metafísico passa a ser, portanto, a fiel correspondência entre o que a descrição representa e o que a realidade é em toda a sua essência. Assim, seria impossível a conquista de terreno epistemológico para a edificação de conhecimentos uma vez que a verdade se encontra muito além da experiência que é a principal ferramenta humana para o desenvolvimento de seus saberes.

A saída que Putnam procura recorrer teve sua primeira tentativa histórica em Kant, quando este reconheceu a utopia do realismo metafísico: “...Kant oferece a primeira tentativa séria da história da filosofia de explicação do conceito de conhecimento objetivo genuíno de uma maneira que não pressupõe a coerência da noção da ‘concepção absoluta’ do mundo – a noção que existe uma concepção do mundo que apreende o mundo como ele (já) é, em si ou fora dele próprio, independentemente das nossas concepções (humanas) particulares sobre ele.”. Putnam tenta resolver o problema aceitando as limitações humanas para a objetividade e, em vez de abandoná-la, propõe uma nova concepção de objetividade. Trata-se de adequar a concepção de verdade ao aparato conceitual humano em suas várias fases históricas em acordo os interesses vigentes, ou seja, um realismo não metafísico, mas de rosto humano: “O realismo interno de Putnam – ou como ele prefere chamar-lhe aqui, ‘realismo com ‘r’ minúsculo” – deseja dar a conhecer uma concepção de objetividade que seja mais fiel à nossa prática atual (tanto a nível cotidiano como científico) de adjudicar afirmações-conhecimento e alcançar formas de consenso racional.”. Já é possível identificar na doutrina de Putnam um certo relativismo quanto a verdade, ainda que esse relativismo não seja absoluto, mas um relativismo conceitual; ou seja, a verdade terá de ser tratada internamente ao conjunto de instrumentos conceituais de uma pessoa, de uma comunidade ou época. Assim, a verdade abandona o absolutismo independente do realismo metafísico para se adequar ao corpo teórico estabelecido. Não é conveniente estar subjugado à morbidez cética que o realista metafísico serve com enorme temor, sempre pronto a abdicar de conquistas no avanço do conhecimento por possibilidades nada razoáveis de inconsistências lógicas. Trata-se de ter a consciência de que “para preencher o programa filosófico, provendo uma causa exata e coerente da natureza do conhecimento e objetividade, a nossa imagem do conhecimento e objetividade tem de revestir-se de um rosto humano.”.

A dualidade ontológica do realismo tradicional onde a mente está presa às determinações do mundo exterior preserva um impasse há já muito tempo antes de Kant. O problema desta dualidade tradicional para Putnam está no fato de colocá-la como opostas, quase inimigas uma da outra. O entendimento que temos entre mente e corpo não deve ser concebido como duas entidades rigorosamente distintas e opostas. Ao contrário do que se pensava as fronteiras entre estas duas entidades não podem ser precisamente delimitadas. Onde quer que esteja a mente ela não pode ser apontada e é indissociável da realidade que, unidas como o conjunto total da experiência, constroem-se mutuamente. Em uma análise entre as ressonâncias do pensamento kantiano e putnamiano James Conant explica:

“...Putnam elogia a caracterização de Kant da alma e do físico como constituindo, não um dualismo de substâncias mas, antes, uma ‘dualidade de experiência’. A noção de que estes dois pólos constituem a dualidade significa que nenhum deles é completamente redutível, nem completamente separável do seu correlativo. Nesse ponto, a tarefa filosófica passa a ser fazer justiça conceptual à complexidade das relações de interdependência mútua e à autonomia relativa que se obtém deste fenômeno. Para Kant, o campo da experiência é constituído pelo exercício conjunto das faculdades humanas de entendimento e sensibilidade. Ele escreve: ‘que não seja dada preferência a um destes poderes em detrimento de outros. Sem sensibilidade, nenhum objeto nos seria dado, sem entendimento nenhum objeto seria pensado. Os pensamentos sem conteúdo são vazios, as instituições sem conceitos são cegas’. A ‘dualidade’ que Kant detecta na natureza da experiência humana baseia-se na maneira como a sua constituição depende da interação destas duas faculdades complementares de sensibilidade e entendimento, e na maneira como o caráter da experiência humana reflete daqui os respectivos aspectos constitutivos de receptividade e espontaneidade.”

Neste sentido, Putnam procura uma alternativa para as condições, em acordo com o seu relativismo conceitual e sua perspectiva anti-dualista tradicional, em que irão ser apoiadas o discurso do conhecimento. Trata-se do que ele chama de “condições epistêmicas suficientemente boas”. A verdade, neste sentido, será não o ser verdadeiro, mas o ser verificado. O verificacionismo que Putnam defende levanta sérias polêmicas que são questionadas pelos seus críticos. A questão principal talvez consista em que as “condições epistêmicas suficientemente boas” são avaliadas por meio de graus. Ou seja, haveria condições mais ou menos boas, de acordo com as circunstâncias e possibilidades presentes. O problema, portanto, persiste em como saber se tais condições são boas ou ruins, pois Putnam, ainda que entusiasmado com essa proposta acaba por deixá-la amplamente vaga. Uma idealização de aceitabilidade racional ou “assertibilidade garantida” não seria rigorosamente vigiada por um método universal onde seria avaliada a razoabilidade das afirmações, mas por uma “comunidade ideal” em boas condições de julgamento que Richard Rorty acaba contestando: “... Mas não consigo ver o que pode significar a ‘aceitabilidade racional idealizada’ além de ‘aceitabilidade racional para uma comunidade ideal’. Nem posso ver como, posto que essa comunidade não terá uma visão estabelecida a partir do Olho-de-Deus, essa comunidade ideal pode ser algo mais do que nós do modo como gostaríamos de ser. Tampouco consigo perceber o que ‘nós’ pode significar aqui, exceto: nós educados, sofisticados, tolerantes, liberais antiproibicionistas, pessoas que estão sempre querendo ouvir o outro lado, imaginar todas as implicações e etc. – em resumo, o tipo de pessoa que tanto Putnam quanto eu esperamos, em nossa melhor fase, ser.” Por este ponto de vista, Rorty identifica um etnocentrismo – no caso, um etnocentrismo intelectual – em que se percebe uma contradição com o relativismo conceitual proposto por Putnam. Rorty prossegue: “identificar a ‘aceitabilidade racional idealizada’ como a ‘aceitabilidade para nós na nossa melhor fase’ é justamente o que eu tinha em mente quando disse que os pragmatistas seriam mais etnocentristas do que relativistas.”.

Putnam, em relação com os realistas metafísicos, guarda contestações de valor epistemológico forte. Sobretudo, falando sobre o conceito de verdade e os limites da objetividade pelo ser humano. É possível perceber uma sinceridade nos argumentos de Putnam que possivelmente não seria encontrado no discurso do realista tradicional que, de fato, trabalha sua filosofia por meio de excessos que, como Putnam diz, é fantasioso. Contudo, o debate entre Putnam e os pragmatistas relativistas mais radicais, como Rorty, ainda reserva muita discussão. Putnam, abandonando o realismo metafísico com sua proposta acaba ficando em uma zona de amplas questões – com toda a certeza interessantes – para a epistemologia que a agora se desenvolve não mais em busca de uma certeza absoluta do ser-em-si, mas em busca de uma proposta consensual que permita o prosseguimento da edificação do conhecimento.

- Benny