Real Time Web Analytics Violência Semântica: Fevereiro 2011

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

A Verdade Enquanto Subordinação à Legislação da Linguagem em Nietzsche


Em Nietzsche encontramos fortes argumentos contra a concepção de verdade enquanto uma “âncora” legítima da linguagem ao seu pretendido objeto. A consolidação de um esquema conceitual necessário, em vez de constituir critérios para uma efetiva objetividade, na verdade acaba por evidenciar a impossibilidade de um conhecimento essencialista por meio da linguagem. Esta afirmação surge do argumento de que o homem, em seu enigmático impulso à verdade, busca constituir metáforas – pelo seu termo nada condizente com a realidade pretendida - que relacionam as propriedades dos objetos não pelas relações próprias da natureza, mas pela linguagem. Tal como Nietzsche diz: “Metáfora significa tratar como igual algo que, num dado ponto, foi reconhecido como semelhante.”.

Os esquemas conceituais estabelecidos se sustentam no “esquecer-se do diferenciável”, na “omissão do desigual”, ou seja “todo conceito surge pela igualação do não igual”. Assim, as individualidades que deveriam ser contingentes acabam por serem sistematizadas por base no que o homem – em todo o seu antropomorfismo - identifica como possível de abstração em universalidades únicas, o conceito. Esta igualação do não-igual dá a entender que exista, em algum lugar, uma espécie de objeto primordial que sirva de convergência das individualidades inerentes às particularidades de cada objeto em suas diferenças propriamente essenciais. Em outras palavras, existiria um objeto conceitualizado do qual derivassem todas as contingências das realidades possíveis. Desta forma, Nietzsche assume: “... toda palavra torna-se de imediato um conceito à medida que não deve servir, a título de recordação, para a vivência primordial completamente singular e individualizada à qual deve seu surgimento, senão que, ao mesmo tempo, deve coadunar-se a inumeráveis casos, mais ou menos semelhantes, isto é, nunca iguais quando tomados à risca, a casos nitidamente desiguais, portanto.”.

A impossibilidade da linguagem se explica por sua existência estar subordinada não ao objeto, mas aos conceitos criados e usados ao longo do tempo. Por meio do hábito que se consolida a relação determinada de imagem-conceito. A associação de dois mundos distantes - não entrelaçáveis, duas esferas completamente distintas – não podem se corresponderem fielmente. Assim, a verdadeira essência das coisas não se encontra ao alcance do homem que, iludido, acredita tão somente em metáforas que surgem a partir de um estímulo nervoso transposto em imagem e, em seguida, transposto em conceito, mesmo que a universalidade deste último não dê conta legitimamente das diferenças das coisas. A negação das diferenças torna possível o conceito, assim como o esquecimento das diferenças torna possível a linguagem que, ao longo do tempo, acaba por se tornar consolidada. Esta consolidação, pois, se assenta em uma mentira uma vez que a verdade não deve mais corresponder ao objeto propriamente dito, mas tão somente à linguagem humana se sustentando em metáforas seculares. A verdade, então, se torna a adequação ao equívoco do hábito, a “obrigação de mentir conforme uma convenção consolidada”. O que é então a verdade, portanto? Nas palavras – famosas – de Nietzsche:

“Um exército móvel de metáforas, metonímias, antropomorfismos, numa palavra, uma soma de relações humanas que foram realçadas poética e retoricamente, transpostas e adornadas, e que, após uma longa utilização, parecem a um povo consolidadas, canônicas e obrigatórias: as verdades são ilusões das quais se esqueceu que elas assim o são, metáforas que se tornaram desgastadas e sem força sensível, moedas que perderam seu troquel e agora são levadas em conta apenas como metal, e não mais como moedas.”

O homem busca sistematizar a imagem projetada pelo estímulo nervoso (metáfora intuitiva, “o mundo esquecido”) e espera que esta possa corresponder à um esquema conceitual tal como relações que a natureza desconhece, mas que se tornam possíveis pela inclusão de propriedades essencialmente humanas. Apenas o que incluímos de humano na natureza das coisas é que é perceptível por nós, pois a relação entre as coisas mesmas da natureza não se encontra dentro dos nossos limites perceptivos. Assim, a apreensão dos objetos não foge dos pressupostos formais humanos que, segundo Nietzsche, só é verdadeiro dentro de suas delimitações e afecções e nunca nas coisas “em-si-mesmas”.

Tomando a metáfora como o objeto propriamente dito, que é inapreensível, o homem, então, constrói seu conhecimento. Estabelecendo hierarquias conceituais e determinações da razão, espera conquistar o que chama de verdade com algo muito longe de onde estava o objeto. A edificação do conhecimento acaba se dando por subordinações matemáticas e imperativos sentenciais incoadunáveis com a realidade em si mesma. Logo, a verdade somente passa a ser considerada quando os usos dos conceitos estão em pleno acordo com as leis da linguagem estabelecida pelo hábito do engano. Assim, a esfera de atuação do pesquisador estará limitada às rígidas determinações humanas. Nas palavras de Nietzsche: “Eis seu procedimento: ter o homem por medida de todas as coisas, algo que ele faz, porém, partindo do erro de acreditar que teria tais coisas como objetos puros diante de si. Ele se esquece, pois, das metáforas intuitivas originais tais como são, metáforas, e as toma pelas próprias coisas.”.

Ora, mas se este modo de percepção humano não é correto qual, então, seria? Para Nietzsche esta pergunta não faz o menor sentido, uma vez que os critérios desta escolha não está à disposição para serem usados. A dualidade sujeito-objeto não é passível de relações consistentes nem sustentáveis, de tal modo que sua mútua-correspondência se torna utópico e ingênuo e sempre se baseará em uma mentira. Tratam-se de dois mundos completamente distintos e ininteligíveis entre si. “A mim me parece, em todo caso, que a percepção correta – que significaria a expressão adequada de um objeto no sujeito – é uma contraditória absurdidade: pois, entre duas esferas absolutamente diferentes tais como entre sujeito e objeto não vigora nenhuma causalidade, nenhuma exatidão, nenhuma expressão, mas, acima de tudo, uma relação estética, digo, uma transposição sugestiva, uma tradução balbuciante para uma língua totalmente estranha.”. Portanto, trata-se de uma intenção que teria necessariamente de se basear em um elemento intermediário mediador que inevitavelmente seria “poético e inventivo”, alterado pelas intenções culturalmente humanas, transpostos em metáforas (imagens) e, em seguida, em conceitos que conservariam, no final das contas, apenas um resíduo de uma metáfora.

O sentimento da existência de uma relação causal entre o sujeito-objeto se dá quando a reprodução prolongada de uma imagem, que surgiu da transposição à partir de um estímulo nervoso, é tamanha para que seja possível a fixação de uma metáfora. Contudo, como Nietzsche explica, essa fixação não justifica nenhuma necessidade ou obrigatoriedade, mas evidencia a ingenuidade humana de se guiar por hábitos considerados apodícticos “assim como um sonho que se repete eternamente seria, sem dúvida, sentido e julgado como efetividade.”. Assim, o sentido de verdade em que Nietzsche desenvolve sua crítica pode, talvez, ser melhor compreendida se tivermos a consciência do desejo que o homem de aplicar – ou melhor, impor - uma regularidade na natureza que não condiz com ela própria, mas tão somente com o próprio homem. As relações que o homem busca apreender parte sempre dele próprio e não da essência dos objetos, portanto, trata-se de relações essencialmente incompreensíveis. Mas, o que de fato pode ser conhecido por nós, neste contexto, será apenas o que nós mesmos aplicarmos à natureza, “a saber, o tempo, o espaço e, portanto, as relações de sucessão e números”. Desta forma, Nietzsche conclui:

“[...] aquela formação artística de metáforas, que, em nós, dá início a toda sensação, já pressupõe tais formas, e, portanto, realiza-se nelas; somente a partir da firme persistência dessas formas primordiais torna-se possível esclarecer como pôde, assim como outrora, ser novamente erigido um edifício de conceitos feito com as próprias metáforas. Tal edifício é, pois, uma imitação das relações de tempo, espaço e números sobre o solo das metáforas.”
- Benny