Real Time Web Analytics Violência Semântica: Fevereiro 2012

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Do Pampsiquismo das Idéias


 O péssimo, ou maravilhoso para alguns, hábito humano de fazer da sua criatura seu próprio carrasco. Ou ainda: em tudo deixar, "humildemente", a criação se voltar contra o criador. Isso é um fetiche. Não é a toa que existem tantos filmes de uma "rebelião das máquinas". Incrivelmente, gostamos até mesmo de imaginar a criação se tornando um monstro concreto - como se não bastasse tantos monstros abstratos ou sentimentos algozes.

É justamente isto que deixamos acontecer com nossas criações: a linguagem - e portanto os conceitos de humanidade -, o método, a religião, a tecnologia materializada, o próprio hábito (e portanto a inércia cotidiana e intelectual), o Estado, as relações interpessoais (principalmente amorosas), a vasta ética contemporânea (que tanto pesa na mochila do militante hoje) e por aí vai...

O que se vê em comum de tudo isso não escapa: adoramos sustentar uma causa (idéia, conceito, sentimento moral e etc) e sentimos um prazer quase sexual - se me permite por já ter falado em fetiches - em NÃO QUERER perceber quando, esta mesma causa, ganha "vida própria" e nos escraviza para a contínua manutenção e conservação DELA MESMA. Quanto a nós, permanecemos nos esquecendo, logo, do objetivo originário desta causa ou idéia, qual seja: NOS SERVIR, e não o contrário! Assim acontece depois de um longo exercício histórico de uma idéia ou sentimento criado: confudimos realidade e convenção abstratra. Esta última, então, passando a exercer aparência de solidez, inelutabilidade, "coisa em si". Logo, se diz em grande suspiro de sabedoria - ou medo: "isto é pelo bem do convívio social e deve se caracterizar como virtude" e etc.

Então que se saiba: idéias são instrumentos... não um fim em si mesmas - e muito menos deveriam ser senhoras de coisa alguma! Existe um abismo enorme entre exercer poder e o poder exercer você. Ou ainda, quem faz a promessa é o sujeito e não o contrário - admitindo a existência de um e falando de "uma criatura capaz de fazer promessas".

- Benny

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

As Motivações do Método Genealógico


Querendo apenas compartilhar algo que se lê e gera entusiasmo toda vez que leio... Diferentemente de Além do Bem e Mal (um livro com alguns capítulos chatos e cheios daquele racismo ranzinza de Nietzsche - falo de racismo mesmo, daquele que fala de sangue e "luta de raças" - mas ainda assim um livro que merece ser lido) A Genealogia, acredito, preserva maior profundidade.

Segue-se o parágrafo 6 do Prólogo de Genealogia da Moral de Nietzsche:

"Este problema do valor da compaixão e da moral da compaixão (- eu sou um adversário do amolecimento moderno dos sentimentos -) à primeira vista parece ser algo isolado, uma interrogação à parte; mas quem neste ponto se detém, quem aqui aprende a questionar, a este sucederá o mesmo que ocorreu a mim - uma perspectiva imensa se abre para ele, uma nova possibilidade dele se apodera como uma vertigem, toda espécie de desconfiança, suspeita e temor salta adiante, cambaleia a crença na moral, em toda moral - por fim, uma nova exigência se faz ouvir. Enunciemo-la, esta nova exigência: necessitamos de uma crítica dos valores morais, o próprio valor desses valores deverá ser colocado em questão - para isto é necessário um conhecimento das condições e circunstâncias nas quais nasceram, sob as quais se desenvolveram e se modificaram (moral como consequência, como sintoma, máscara, tartufice, doença, mal-entendido; mas também moral como causa, medicamento, estimulante, inibição, veneno), um conhecimento tal como até hoje nunca existiu nem foi desejado. Tomava-se o valor desses "valores" como dado, como efetivo, como além de qualquer questionamento; até hoje não houve dúvida ou hesitação em atribuir ao "bom" valor mais elevado que ao "mau", mais elevado no sentido da promoção, utilidade, influência fecunda para o homem (não esquecendo o futuro do homem). E se o contrário fosse verdade? E se no "bom" houvesse um sintoma regressivo, como um perigo, uma sedução, um veneno, um narcótico, mediante o qual o presente vivesse como que às expensas do futuro? Talvez de maneira mais cômoda, menos perigosa, mas também num estilo menor, mais baixo?... De modo que precisamente a moral seria culpada de que jamais se alcançasse o supremo brilho e potência do tipo homem? De modo que precisamente a moral seria o perigo entre os perigos?..."