Real Time Web Analytics Violência Semântica: Março 2013

quinta-feira, 21 de março de 2013

Max Stirner: Introdução ao Prefácio do Único.



As semelhanças ou aproximações com outros autores de início já se apresentam. Não há dúvida que Nietzsche e Stirner, por exemplo, possuem raciocínios que compartilham de muito em comum. Também é dito que em Deleuze semelhanças próximas e prerrogativas em comum se apresentam (Saul Newman, 2005: 13). Outros autores próximos a citar são: Foucault, Guy Debord, Raoul Vaneigem, e etc. Em A Arte de Viver Para As Novas Gerações, de Raoul Vaneigem, a aproximação com a obra de Stirner se faz íntima. Entre os ativistas que se inspiraram ou foram indiretamente influenciados por Stirner estão Sergey Nechayev, Émile Armand, Élisee Reclus, Ravachol, Émile Henry, dentre outros.

Na foto: Pablo Escobar, antigo traficante colombiano. Dono do Cartel de Mendellín. Alguém que provavelmente não conhecia Stirner, mas que compactua suas ações com o Único.

........ Vamos ao texto:


“Minha causa é a causa de nada” (Stirner, 2009: 09), assim Stirner inicia a sua obra. Contudo, o que significa esta máxima? O “nada” de Stirner, ao menos neste momento do texto original, esconde uma proposição adjacente que pode não estar explícita. Assim, usando outras palavras, podemos elucidar melhor a sua máxima com “fundei minha causa sobre nada, isto é, nada além de mim mesmo”, ou ainda: "a minha causa é nada além de mim mesmo". Falando em primeiro pessoa, o que está além do que sou se trata de algo estranho a mim, algo que busca me alienar em nome de seus interesses. Tais interesses, Stirner poderia dizer, estão ocultos sob o pretexto de uma causa.
           
Eu - os "eus" de Stirner são introspecções do seu texto - já deveria ser causa suficiente da minha causa, ou seja, “Eu” não preciso procurar causas para seguir além das que posso encontrar em mim mesmo. Todavia, “há tanta coisa a querer ser a minha causa!" (Stirner, 2009: 09). Uma vez inserido nas prerrogativas de uma sociedade, inúmeras ideias (e o sentido de ideia que Stirner propõe é seriamente importante) esperam que prestemos honra e devoção, que tomemos como nosso objetivo. Estas ideias, exemplificando brevemente, seriam a causa de Deus, da humanidade, da verdade, da liberdade, do humanitarismo, da justiça e etc (Stirner, 2009: 09). Tendo isto em mente, Stirner levanta a seguinte questão: o que há por trás destas causas? Seriam elas um pretexto? Ou mais precisamente: estariam elas (estas ideias) a serviço de algo senão elas mesmas?
            
Sobre Deus, que é tudo em tudo (Stirner, 2009: 10), Stirner desvenda suas pretensões. Deus, que é uma causa - uma ideia - espera que guardemos esforços para sua empresa, que estejamos em acordo com suas próprias causas. Quais seriam estas causas, as causas de Deus? Há quem diga que a causa de Deus é a verdade e o amor, por exemplo. Ora, o que se deixa passar despercebido é que Deus é, ele mesmo, a verdade e o amor (Stirner, 2009: 10). Disso se segue que Deus segue nada senão ele mesmo, afinal, se investigarmos a fundo, iremos atestar que a ideia de Deus é mesmo tudo em tudo! Não haveria, portanto, como Deus seguir uma causa que fosse estranha à ele: tudo o que Deus é e faz acaba por se dirigir a si próprio. Em contraste estamos nós que não somos tudo em tudo, que não possuímos, em nós mesmos, propriedades tão grandiosas, ou seja, se fossemos falar da causa do nosso “Eu” estaríamos falando de uma causa bem pequena e desprezível. Portanto (supostamente), devemos procurar uma causa maior, uma causa além de nós mesmos. Isto é, nós não somos, por si só, suficientes para sermos nossa própria causa; somos, por assim dizer, carentes de significado suficiente – contudo, Stirner não pretende aceitar isso. Voltando a falar de Deus, ele conclui:
            
“Do exposto fica claro que Deus só se preocupa com o que é seu, só se ocupa de si mesmo, só pensa em si e só se vê a si – e ai de tudo aquilo que não cai em suas graças! Ele não serve nenhuma instância superior e só a si se satisfaz. Sua causa é uma causa... puramente egoísta.” (Stirner, 2009: 10).
            
Deus é o primeiro exemplo desenvolvido por Stirner no prefácio do Único. Entretanto - apesar de ser uma ideia que Stirner guarda grande atenção durante seus escritos -, Deus não é a única ideia da qual esperam nosso respeito e devoção. Há, ainda, como outras, a ideia de humanidade. A causa da humanidade não é outra coisa senão ela mesma. É importante aqui entendermos a humanidade, ou “O Homem”, como um conceito, algo convencional, não concreto. Tentarei, com minhas palavras, elaborar uma explicação para esclarecer o que Stirner pretende: a humanidade não é o homem mesmo, o “homem de carne e osso” (Stirner usa essa expressão no Único) do qual carrega individualidades, particularidades – estas, inconcebíveis por generalizações. A humanidade ou “O Homem” se trata de um signo, ou palavra, de significado geral, universal. É, pois, algo abstrato, estranho ao homem em si mesmo, que é único e não-geral. A humanidade ou “O Homem” se trata, na verdade, de um pretexto, de uma causa que, ao final e ao cabo, serve apenas à ela mesma, buscando condicionar o indivíduo a algo estranho, genérico. Tal ideia tenta sufocar as particularidades de um indivíduo em nome de uma “constante”. Talvez uma aproximação seja possível com Nietzsche, em Verdade e Mentira em Sentido Extra-Moral, onde se fala sobre a tendência na filosofia, ou mesmo no costume comum, de “igualar os desiguais”. Seja como for, o que está em cheque é a compreensão das ideias enquanto coisas independentes em certo nível. Uma vez postuladas, elas ganham “vida própria” e, por assim dizer, nos escravizam em nome delas.
            
Ora, mas as ideias (ou conceitos, signos e etc) não são convenções humanas? É verdade que uma ideia só persiste enquanto ela é convencionada e alimentada. Mas, enquanto o for, ela exerce seu propósito: engajar forças em nome da sua empresa. Em princípio, uma ideia deste tipo tinha como propósito servir aos seus fundadores, por assim dizer. Contudo, após certo período, sua origem instrumental (como devia ser) é esquecida e acaba por restar apenas a lembrança de que devemos guardar esforços por ela, tal como se sucede com a pátria, a família, Deus, o respeito, a humanidade, e etc. Posteriormente uma ideia pode vir a ser revisada, “refundamentada”, tal como acontece. Todavia, a refundamentação de uma ideia recorre à outras ideias ainda não fundamentadas, de tal forma que a filosofia busca por ideias absolutas que não necessitem de fundamentação para cada contexto e época. Assim se espera com a “boa vontade em si” de Kant, que significa, em uma perspectiva significativa, a reificação de ideias. Contudo, como Stirner deixará claro, ideias não são coisas, tal como o é o indivíduo, mas são “fantasmas”, “espectros”, coisa abstrata, puramente convencional e, portanto, não absolutas. Este perspectivismo ou relativismo atravessa toda a obra de Stirner.
            
Voltando ao prefácio do Único, Stirner conclui que as ideias de humanidade, Deus e etc, estão a serviço apenas delas mesmas: “Nada é a causa de Deus e da humanidade, nada a não ser eles próprios” (Stirner, 2009: 11). Além disso, esperam nossos esforços em nome delas. São, logo, egoístas: tal é o termo que Stirner propõe usar. Ele prossegue:
            
“Em vez de continuar a servir com altruísmo aqueles grandes egoístas, sou eu próprio o egoísta [...] Eu sou minha causa, eu que, como Deus, sou o nada de todo o resto, eu que sou o meu tudo, eu que sou o único.” (Stirner, 2009: 10).
           
Se trata aqui de uma inversão de perspectiva. Usando um plano mais concreto: de um lado está a autoridade convencionada (ou as ideias), o “sultão” e, do outro, seus subordinados que devem obediência. Um se preocupa apenas consigo mesmo e usa tudo ao seu alcance (tal como outras ideias) para legitimar seu cargo e proveito, o outro guarda devoção e dedicação para com o seu senhor. Um é egoísta, o outro altruísta. Mas também haverá casos onde o próprio Senhor ou Sultão é um altruísta, pois os seus subordinados, ou seu povo, também se apresenta como uma ideia sacralizada, uma ideia da qual deve, ao fim e ao cabo, obediência.
            
Tudo o que foi dito até aqui se trata de uma síntese extremamente superficial da obra. Talvez Stirner não tenha sido feliz com este prefácio, que apenas anuncia, de modo deveras provocativo, o que ele desenvolverá em grande número de páginas. Em primeira vista, pode parecer visionário ou mesmo trivial. Contudo, no desenrolar do texto, raciocínios penetrantes evidenciarão descobertas e edificarão críticas massivas à filosofia moderna e contemporânea. Possivelmente direcionado à Kant, Stirner fala de uma “boa causa”, semelhante a “boa vontade” da Fundamentação da Metafísica dos Costumes (Kant, 2004: 25). Para Stirner, falar de uma causa boa ou má não faz sentido (Stirner, 2009: 12). Ele nega, portanto, esta dualidade. Quanto ao Único – o personagem vislumbrado por Stirner – não cabem juízos deste tipo; O Único funda seu sentido e juízo apenas em si mesmo, como se nele mesmo já fosse possível encontrar causa suficiente para sua existência. Nada, além dele, é tolerável. O que vem de fora, o que não já é propriedade única do Único, se trata de algo estranho, algo alienador. Ora, mas isso não provocaria um vazio? A negação de um sentido maior não seria mergulhar em um grande vazio que somos quando condenados à nós mesmos?
            
Quando Stirner diz que “A minha causa é a causa de Nada”, ele não o fala no sentido de vacuidade. Ele se refere, antes, a um Nada criador (Stirner, 2009: 12). O Único é, essencialmente, um criador. Mas um criador do qual usa como “matéria-prima” apenas si mesmo, isto é, nada além dele deve ser usado como prerrogativa de suas criações, exceto se para tal ele o usa como, por assim dizer, instrumento. Do contrário, o indivíduo estaria aceitando ser dominado, aceitando ter sua vida guiada segundo causas estranhas, causas segundas que são, como Stirner explica, egoístas. Para melhor compreender este momento do raciocínio de Stirner, cabe recorrer ao texto “Do Papsiquismo da Ideias” que escrevi. Neste curto texto, procuro explicar, de modo breve, como as ideias ganham vida própria e se voltam contra o próprio criador. São, portanto, antes Senhoras que instrumentos.
            
Concluindo o prefácio, e anunciando as motivações da sua obra, Stirner escreve:
            
“O divino é a causa de Deus, o humano a causa “do homem”. Minha causa não é nem o divino nem o humano, não é o verdadeiro, o bom, o justo, o livre etc., mas exclusivamente o que é meu. E esta não é uma causa universal, mas sim... única, tal como eu. [...] Para mim, nada está acima de mim!” (Stirner, 2009: 12).

- Benny Nunes


Bibliografia

            STIRNER, Max. O Único e a Sua Propriedade. Tradução, glossário e notas de João Barrento. São Paulo: Martins, 2009.
            SAUL NEWMAN. Guerra ao Estado: O Anarquismo de Stirner e Deleuze. Verve, 8: 13-41, 2005.
            KANT, Immanuel. Fundamentação da Metafísica dos Costumes. Tradução de Paulo Quintela. Lisboa: Edições 70, 2004.