Real Time Web Analytics Violência Semântica: Outubro 2013

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

O Pressuposto de Inocência Guarda um Pretexto.


Em um "cálculo moral", se me permitem usar esse termo, o bom cidadão, em uma perspectiva muito objetiva, é tão criminoso quanto aquele que afirma o crime diretamente - tão como é criminoso, por razões semelhantes, quem media a relação entre estes dois, isto é, o Estado (este último é, portanto, o substrato deste cenário). A diferença está mais em nível psicológico ou de comportamento: um é dissimulado e o outro, o que se afirma como criminoso sem delongas, é apenas sincero. Porém, uma vez mais, os dois são criminosos em mesmo nível. Me sinto agora forçado a parafrasear Pondé - o que na verdade Nietzsche já havia dito antes: "A hipocrisia é a essência da vida moral". Grosso modo, uma vez que a sinceridade, seja de quem for, se torna imperativa, a postura de boa pessoa vai buraco abaixo. E mais: em uma perspectiva política, a fronteira que divide o inocente do criminoso é extremamente frágil, estando, em mesma dose de crime, diversos atos aparentemente inofensivos mas com implicâncias intensificadas quando investigadas a fundo.

Em geral, a moralidade sempre tem seu sustentáculo político, que reside em algum tipo de mentira ou pretexto tendencioso (existem outros modelos, mas em geral...). Na tentativa de encobertar esse "pré-texto" (que não é declarado, portanto) surgem cerimônias de divertimento: Nietzsche sabia bem, traçando sua genealogia da moral, que antes de qualquer intenção de corrigir, o ser humano encontra motivo de festa e prazer em punir. Seria como, diria eu, encontrar prazer na desgraça alheia (principalmente pública), não importa o motivo. Contudo, ninguém melhor pra ser o alvo desta festa algoz como alguém que julgamos como criminoso. O problema é que o criminoso flagrante (assim o intitularemos) frequentemente é menos criminoso que o homem de bem. O que faz o criminoso flagrante soar tão pior é simplesmente o fato de ser flagrante e, portanto, de estar passível, por via pública, de ter a negatividade do seu ato amplificada consideravelmente.

Quanto a dissimulação nesta coletânea de afirmações (bandido bom é bandido morto), me parece que o inconsciente destes dois (o ladrão e o bom cidadão) estão bem a par disso. Talvez seja por isso que sentem essa pulsão, motivada por uma culpa entalada na garganta (agora desfigurada), de ficar falando o tempo inteiro coisas óbvias ou triviais. É mais fácil jogar a culpa em um segundo antes que a culpa alcance você: de um lado a carência que se manifesta com a ostentação por migalhas (no ladrão), do outro o "é porque você nunca foi roubado" (no homem de bem). Uma pitada de sensatez é suficiente pra saber que o primeiro é tolo e o segundo óbvio demais, tão óbvio que reflete a preguiça intrínseca deste setor, uma vez que um roubo representa muito mais que a mera cena e implicâncias jurídicas do crime.

Ao bom cidadão, logo, nada resta senão espernear. Ele ignora o fato de que omissão não é menos crime (nem mesmo pro Estado, a priori), pelo contrário, é um crime mais frequente e, além disso, é o crime que perpetua o crime de caráter flagrante - o crime direto, um assalto a banco, por exemplo, tem seu combustível na poltrona do homem de direito. Stirner, no Único, mal precisou ultrapassar o prefácio pra constatar a contradição entre os "homens de bem" e se voltar contra eles: 

"Em vez de continuar a servir com altruísmo aqueles grandes egoístas [homens de bem], sou eu próprio o egoísta" (Stirner, 2009:10)

Com essa afirmação, mais a frente, Stirner chegará mesmo a dizer que um indivíduo, de uma dada perspectiva, só afirma sua existência por meio do crime - é por isso que o homem de bem, mesmo sem saber, é um criminoso de mesmo nível. A ilusão de neutralidade na história, assim, apenas lança mais lenha no que você mesmo não gosta - afinal ainda não se tomou consciência da própria criminalidade da qual você faz parte. Desta forma, na perspectiva de Stirner, queremos ser egoístas, colocar os fins a frente de tudo - sermos criminosos, portanto - mas odiamos quando um segundo tenta fazer o mesmo, ou pior: nos refugiamos em uma dada ordem geral de coisas para poder tacar pedras de lá, com a mediação do Estado. Daí, por alguma razão psicológica ainda não muito bem explicada, se atira pedra no que você mesmo construiu. Por fim, é bem perceptível que há muitos "pré-textos" em cada afirmação, muitas coisas sendo escondidas: sonegação de impostos, omissão de responsabilidades políticas, consumo inconsequente de produtos resultantes de mão de obra escrava, violência ideológica, consumo de pornografia pedófila e por aí vai, aos milhares, crimes diários, com implicâncias holocáusticas a curto ou longo prazo. Somente guardando este lado da moeda, isto é, deixando isso no pretexto de tudo, é que se torna possível atirar pedras sem peso na consciência.

No mundo os únicos inocentes são os recém-nascidos. Bala na cabeça, se disso se tratar, todo mundo merece.

- Benny


Bibliografia

STIRNER, Max. O Único e a Sua Propriedade. Tradução, glossário e notas de João Barrento. São Paulo: Martins, 2009.
SAUL NEWMANGuerra ao Estado: O Anarquismo de Stirner e Deleuze. Verve, 8: 13-41, 2005.
NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da Moral.  Tradução de Mário Ferreira dos Santos. Vozes, 2009.
VIOLÊNCIA SEMÂNTICA: As Motivações do Método Genealógico, 2012; Max Stirner: Introdução ao Prefácio do Único, 2013; O Bom Democrata, 2011; Stirner: Minhas Relações, 2012.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Porque queremos amar alguém?


Se apaixonar por alguém, nos critérios comuns, exige um plano de fundo mental característico do início da juventude, qual seja: uma visão romântica da vida. Tal maneira de ver as coisas está constantemente conjugada a uma imaturidade neuropsíquica - exceto nas vezes onde o romantismo é parte estratégica dos interesses de determinada doutrina. Esta visão romântica da vida (e também do mundo) não tem nada a ver, a priori, com o amor conjugal, mas sim com a perspectiva de que a vida e o mundo reservam sentidos e significados específicos. Contudo, com a maturidade cerebral, isto é, com o final do desenvolvimento neurofisiológico (que se alcança entre 23 e 30 anos) a racionalidade integrante de determinados pontos do cérebro se torna, por fim, completa e avançada, passando a apresentar, em nível mental, um novo filtro (ou lente, como preferirem) para ver o mundo e a vida. No momento em que esta circunstância no tempo biológico se faz presente, o romantismo da juventude vai buraco abaixo, restando, imperativamente, uma visão racionalista serva de pulsões egoístas. O amor romântico, logo, não mais se faz presente e, portanto, não mais existe amor conjugal em seu rigor conceitual. Em vez disso, o que existe é fingimento (pois a ordem moral exige) ou contratos amorosos racionalizados (calculados) demais para se chamar um "amor sincero". O resultado disto no homem adulto é um desespero inconsciente de retornar ao passado, de reviver a sensação real que usufruiu na sua primeira juventude, de não se sentir egoísta, de resgatar a sua imaturidade romântica, portanto. É por esta exata razão que sentimos já quando adultos - inconscientemente, por culpa e angústia - a necessidade de afirmar publicamente que amamos alguém.

- Benny