Real Time Web Analytics Violência Semântica: Novembro 2016

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Black Mirror não é s/ tecnologia, nem s/ o que há de pior em nós: é sobre filosofia.


Nas últimas semanas me deparei com dois textos: um que atribuía a temática "tecnologia" e outro que atribuía a temática "sobre o que há de pior em nós mesmos" acerca do seriado Black Mirror.

Considero essas atribuições uma negligência grosseira, uma vez que desconhecem o que filósofos fazem, pelo menos, desde Descartes - ou até antes. Trata-se do que chamamos em filosofia de "experimentos de pensamento" (ou thought-experiment, como foi cunhado pelos filósofos de língua inglesa). Os experimentos de pensamento são uma poderosa ferramenta epistemológica presente em muitos argumentos filosóficos, sobretudo aqueles de teor metafísico. Grosso modo, são casos imaginários conjecturados a fim de colocarem em teste as nossas intuições. Por exemplo, no caso de Locke, é muito conhecido o experimento de pensamento de trocas de mentes do Príncipe e o Sapateiro, onde a intenção é forçar nossas intuições acerca dos critérios metafísicos de identidade pessoal.

Locke, contudo, é alguém já mais a frente na história do pensamento filosófico a usar essas ferramentas epistemológicas. Assim, precisamos retroceder ainda mais no tempo e evocar as Meditações Metafísicas de Descartes, obra que determinou para sempre o pensamento moderno. Nela Descartes busca provar, dentre outras coisas, a sua própria existência. Para tanto, ele elabora o que se pode chamar de "ceticismo metodológico" ou "dúvida metódica", onde tudo é colocado em dúvida a fim de podermos avaliar até mesmo os nossos paradigmas metafísicos mais profundos. Operando essa dúvida filosófica, Descartes propõe o experimento de pensamento do Gênio Maligno, que nada mais é do que a versão original dos cenários de filmes como Matrix, Oblivion ou Show de Truman. Em resumo, Descartes considera a possibilidade de que todas as suas percepções, ou mesmo pensamentos, estão sendo manipulados por um gênio maligno. Logo, tudo o que sabemos ou que poderíamos vir a saber, será falso. Feito isso, ele lança o argumento do cogito cartesiano, a saber, de que um gênio maligno (ou uma matrix, ou feixes perceptivos implantados em meu cérebro e etc.) pode nos enganar sobre tudo, exceto sobre o próprio engano. Noutras palavras, ainda que meu pensamento e percepções sejam ilusórios, estes últimos, verdadeiros ou ilusórios, são, em si mesmos, reais. Portanto, posso ter certeza de que, mesmo enganado, eu existo enquanto penso, me engano ou duvido.

O filósofo contemporâneo Hilary Putnam, muito antes desses filmes, também já havia elaborado um experimento de pensamento semelhante ao gênio maligno cartesiano, a saber, o experimento do cérebro numa cuba (http://www.iep.utm.edu/brainvat/). Para podermos ilustrar esse caso, basta imaginarmos um cérebro inserido num recipiente capaz de nutri-lo adequadamente. Além disso, é necessário imaginarmos que esse cérebro está sendo "alimentado" artificialmente com estímulos que simulam os estímulos externos do mundo. As conclusões acerca desse experimento são semelhantes ao do gênio maligno de Descartes (muitos aceitam a convenção de que é apenas uma outra versão do experimento do gênio maligno). É possível notar, portanto, que o uso da tecnologia nesses experimentos, muito antes de constituirem motivação ou roteiro semântico, são apenas cenários capazes de embasar sentidos ou discussões de segunda ordem, isto é, filosóficos.

Num recente livro intitulado Selves: philosophy in transit, Barry Dainton apresenta o experimento de pensamento do cérebro perdido (missing brain) ou, como prefiro, do Cérebro Roubado - uma versão deste experimento também já foi desenvolvida pelo filósofo Daniel Dennett. Se, em Descartes, o cenário da tecnologia não era presente, entre os filósofos mais contemporâneos (início, meio e final do século XX) os casos imaginários futurísticos são quase que regra. No experimento de Dainton, por exemplo, considera-se que, num dado dia, você acordou sem o seu cérebroi, pois ele havia sido roubado, enquanto você dormia, por sequestradores. Olhando no espelho é possível notar que o seu cérebro realmente foi roubado, pois na lateral de sua cabeça encontra-se uma placa de vidro que permite enxergar o que há por dentro do crânio. Assim, no lugar de seu cérebro está o que parece ser um conjunto de chips e fios. O telefone toca - são os sequestradores. Eles ordenam que você ligue a TV num determinado canal. Você pega o controle, liga a TV e lá está o seu cérebro, há quilômetros de distância, ligado a inúmeros feixeis "neurais" de silício. Os sequestradores, de imediato, exigem certa quantia para que seu cérebro seja devolvido. Nesse momento, lançamos a dúvida: "se o meu cérebro está há quilômetros de distância, por que a minha experiencia perceptiva ocorre aqui?" Não pretendo discutir os pormenores desse experimento, pois vocês podem encontrá-lo no livro na internet. O que importa para nós agora é demonstrar que o cenário tecnológico é contingente, ele não constitui temática alguma para o experimento do Cérebro Roubado. Muito antes, a temática é metafísica: se a minha mente, ou a minha consciência, encontra-se no meu cérebro, por que as minhas sensações poderiam operar em outro lugar? Para levantarmos esse questionamento, o cenário tecnológico não é obrigatório, ele apenas é mais bem concebível. Poderíamos, por exemplo, substituir o cenário tecnológico do Cérebro Roubado por um cenário mágico ou mesmo espiritual: aqui a imaginação está livre, pois o que importa, quando realizamos um experimento de pensamento, não são cenários fictícios, mas nossas intuições. Dizendo de outro modo, experimento de pensamento são ferramentas argumentativas.

Todos os episódios em Black Mirror sobre codificações de mentes em outros substratos, das mentes ou sujeitos psicológicos duplicados ou sobre a dúvida de se saber se a cópia comportamental de meu marido é, ou não, o meu marido e etc., sem exceção, já foram trabalhados, ou originalmente desenvolvidos, em filosofia. Aqui temos, respectivamente, conceitos filosóficos como o de múltipla realizabilidade da mente, critérios de identidade pessoal sincrônica e diacrônica e behaviorismo filosófico, bem como o escopo presumido, em todos os casos citados, do funcionalismo computacional. Tais conceitos, sem outra possibilidade, são temas em filosofia. Mais especificamente, temas em metafísica. Sim, há episódios que não tratam sobre metafísica, mas, nesses casos, ainda estamos dentro de território filosófico, tal como o primeiro episódio da série, uma cinematografia sobre ética. O segundo episódio da série, por exemplo, trata, conscientemente, ou sem perceber, de uma querela filosófica amplamente discutida na atualidade, qual seja: a questão em filosofia política sobre opressões de classe e concessões simbólicas (uma analogia ao episódio seria a questão filosófica sobre a positividade real de uma conquista do casamento gay numa sociedade estruturalmente determinada por classes). Outro episódio, também da primeira temporada, trata sobre o estatuto da memória: por exemplo, seria o esquecimento uma faculdade positiva ou negativa do nosso psiquismo (Nietzsche trata disso com especialidade)? Enfim, se passarmos por todos os episódios nenhum deixará de ter, como protagonista, uma discussão filosófica.

Mas, daí, há ainda os devaneios para preencher views de sites e blogs que pretendem ganhar dinheiro (nada contra, mas...). Noutra interpretação, disseram que o seriado é "sobre o que há de pior em nós mesmos". No texto até citam a filosofia como temática. Em verdade, é impossível eu dizer aqui que o texto está errado. Ele não está, a rigor, errado, mas retoricamente sim, pois esquece que a temática da própria natureza humana também é filosófica, por exemplo. Nesse caso, não é mal interpretação, mas apenas a leve negligência de subrepresentar a filosofia nessas questões. 

Tendo tudo isso em consideração, devemos concluir que Black Mirror é a primeira série genuinamente filosófica. Se tínhamos, em grande número, séries de médicos, juristas, bombeiros e policiais, agora, finalmente, podemos aproveitar uma série propriamente de filosofia. Isso é fantástico. Isso também deixa evidente o quão importante é, dada as atuais conjunturas da nossa educação, a filosofia para a plena formação de um indivíduo na modernidade - exceto, claro, se acharmos que as temáticas de Black Mirror são triviais.

- Benny