Real Time Web Analytics Violência Semântica: Setembro 2014

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Ser "Libertário" no Séc.XXI


Há algo que os opositores do pós-modernismo dizem e que vem fazendo muito sentido pra mim. Quanto aos meus pressupostos particulares, estando influenciado por Hakim Bey e demais teóricos de uma "rebeldia múltipla e interpenetrada", eu era refratário frente a qualquer argumento essencialista da teoria revolucionária. Mas desta vez terei de comprar uma das críticas deles, pois ela não me parece essencialista, mas estratégica, qual seja: existe uma tendência generalizada entre pessoas "a esquerda" de se encaixarem no que os liberais atuais chamam, erroneamente (mas de modo interessante), de "marxismo cultural". Em outras palavras, e traduzindo os próprios liberais, estas pessoas abandonaram o projeto e engajamento revolucionário (qualquer que seja) em nome de fragmentos do que seria um projeto revolucionário. Não falam de ruptura da ordem vigente, muito menos de anti-capitalismo, mas preferem falar de - e pautam a totalidade de suas lutas em - feminismo, anti-racismo, anti-homofobia, anti-fascismo e etc. Se sentem aterrorizadas ao serem chamadas de algo que remeteria a algum engajamento doutrinário, é a "revolta das etiquetas", dizem. Logo, não aceitam serem chamados de anarquistas ou marxistas e nem nada (até porque, muita atenção nisso, a leitura teórica também se dá por fragmentos). Logo, surge a expressão que vem dando dor na espinha pra muito teórico sério hoje: eles preferem serem chamados, aleatoriamente, de "libertários".

Assim, nos últimos anos, surgiu libertário pra todo tipo de sorte. Ser libertário se tornou que nem Deus e cú: cada um tem o seu. Como resultado positivo, tivemos já de primeira a multiplicação de pautas, mas houve, contudo, um resultado negativo óbvio e factual: fragmentação de movimentos e coletivos, falta de comunicação entre diferentes frentes de luta, ausência de perspectivas a longo prazo e um verdadeiro congelamento estratégico. Além disso, e o mais impressionante, as urnas começaram a fazer sentido. O sistema representativo agora não é mais questionado, mas sim utilizado invariavelmente. Grupos de debate que se esgotam em si mesmos se tornaram virose: o exercício intelectual de uma espécie de "transvaloração dos valores" nietzschiana não é mais um instrumento abstrato para motivações concretas, ele é o meio e fim de algo que se esgota em debates pontuais. A despeito da profundidade destes debates, devemos dizer, é bem claro que há um espírito revolucionário latente entre estas pessoas, mas ao mesmo tempo essa latência nunca se revela, ou grosso modo, "não sai do armário". A aversão à doutrinas libertárias plenamente constituídas se tornou uma aversão ideofóbica, que na prática discursiva se revela uma "logorréia", como diz um professor de ciências sociais da UFJF, Gilberto Vasconcellos

Saul Newman, um acadêmico britânico que estuda a atual união entre anarquismo clássico e pós-estruturalismo (algo que ele chama de pós-anarquismo), reconhece a importância da multiplicidade de lutas e questionamentos internos dos movimentos, mas também parece se preocupar com onde está indo parar o compromisso revolucionário efetivo. Ele diz algo como: "o anarquismo clássico tem muito o que aprender com Foucault, mas também o adepto do último tem muito o que aprender também com o do primeiro". Parece inegável a contribuição que Foucault, Nietzsche, Deleuze, Derrida, Hakim Bey e demais "pós-modernos" e "proto-pós-estruturalistas" (como Nietzsche e Stirner) podem oferecer, logo não devemos negligenciá-los, de jeito nenhum. Mas, por outro lado, os resultados da fragmentação de lutas e a aversão doutrinária motivadas, de alguma forma, pelo debate destes últimos parecem ser muito negativos. Importante dizer que não necessariamente os "libertários" de quem falo leram ou se inspiraram nos autores que acabo de citar, muito provavelmente nem os conheçam, mas o discurso daqueles parece estar implícito no comportamento e ativismo destes. Habermas chama Foucault de um anarquista, e com razão, mas os entusiastas de Foucault saem correndo quando o assunto é anarquismo propriamente dito (mas vale lembrar que Foucault já sentou pra conversar com Chosmky em sua fase anarquista). Resultado: "em assunto de revolução cada um no seu quadrado", como se, ao final e ao cabo, a soma de lutas desarticuladas fossem capazes de anunciar um novo mundo transformado e livre das pautas que o "libertário cultural" (vamos usar este termo) visa questionar.

Nenhuma das pautas atuais são ilegítimas, de jeito nenhum. Mas há algo que muitos autores vêm me chamando a atenção: a multiplicidade de lutas, por maior que seja sua significação, nem sempre implica avanço em termos estratégicos. Em determinadas circunstâncias ela pode significar, muito antes, a realização do efeito paralisante que o próprio dominador, agressor ou burguês (veja que até o inimigo se fragmentou) esperava. Mais ainda: uma lista de pautas periféricas, uma vez que não tocam os dispositivos essenciais e replicadores do próprio inimigo, funcionam, em um sentido crítico, como lenha na fogueira para mais opressão. Em um outro sentido ainda: provocar o inimigo por trás da mureta não o enfraquece, o deixa mais forte e agressivo. Logo, a pedra que o machista, fascista ou racista recebe (por bom merecimento) irá voltar, e voltará como duas, pois o que acabamos de reivindicar não foi o fim da opressão mas sim, na linguagem do mundo político real, mais demanda de opressão. Acabamos, por fim, operando não a nossa pauta, mas a pauta do inimigo. Ora, não é esse tipo de argumento essencialista da teoria revolucionária que evitávamos? Sim, eu evitava, mas não será a hora de revê-lo?

Disseram-me uma vez, como crítica ao machismo dentro dos movimentos anarquistas: "não existe anarquismo sem feminismo". Ora, tive que concordar inteiramente. Mas agora me permitam dizer com a mesma categoria: será que existe feminismo sem anarquismo? Penso que, no fundo, não queremos dividir espaço com o patrão, o governante ou o agressor. Não se trata, portanto, de igualdade aos moldes do burguês liberal, ou melhor dizendo, igualdade dentro do sistema que produz o opressor, mas igualdade sob um novo terreno, longe dos pilares que permitem a possibilidade de oprimir. Neste sentido, parece haver uma contradição brutal entre defender determinadas lutas e não anunciar, com a mesma ênfase, por onde anda sua postura plena e política. Ainda não precisamos apresentar, como uma tese de mestrado, um projeto pós-revolucionário plenamente constituído, não se trata de termos em mãos o projeto de um "admirável mundo novo", mas ao menos uma disposição revolucionária precisamos de uma vez por todas assumir, apontando as raízes e delimitando a essência do inimigo, e isto implica em uma bandeira do processo revolucionário. O que você escolhe? Pensemos nisso.

- Benny

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Maconha: Abordagem Comportamental x Orgânica.


*Alegando desde já meu humilde e inicial conhecimento acadêmico nesta area, gostaria de fazer uma contribuição no debate que vem crescendo desde 2012. Conhecimentos aprofundados sobre o assunto constam em artigos de diversas revistas neurocientíficas das quais não estou citando inicialmente, mas pretendo adicioná-las futuramente. A motivação do texto a seguir deriva da polêmica revista Scientific American Brasil deste mês de Setembro de 2014, na qual, já na capa, consta a afirmação de demência precoce no uso da maconha. Tudo, ao que parece, se trata de uma resposta às pesquisas lideradas por Carl Hart.

Vamos lá:

Desde que os estudos de Carl Hart se tornaram famosos, uma determinada "militância" da vertente behaviorista das investigações neurocientíficas, isto é, a neurociência comportamental (que evitam investigar as instâncias cognitivas em seu processos orgânicos) voltaram a atuar com força, sobretudo em se tratando do consumo da maconha. Esta vertente defende que não se pode tirar conclusões apodícticas de estudos a partir de dados bioquímicos, de imagens cerebrais, estudos celulares e etc. Em suma, esta vertente diz: devemos observar o comportamento da pessoa, é neste âmbito onde podemos detectar diferenças legítimas e elaborar conclusões - disto se segue comparativos de prejuízos sociais, familiares e etc. Ora, é óbvio que, em se tratando de comportamento, não iremos observar mudanças drásticas, sobretudo a curto prazo, no uso da maconha. Em geral a gente fuma um e tudo volta ao normal depois e nossas relações sociais permanecem saudáveis, seja uso crônico ou não.

Contudo, sou obrigado a dizer logo de uma vez: essa vertente neurocientífica é uma das menos sucedidas no que tange a objetividade de explicações causais de análise. As observações desta abordagem se resumem a observação externa, algo extremamente subjetivo e caros de vieses. Enquanto os estudos bioquímicos da vertente orgânica descrevem processos de armazenamento da memória em seus pormenores moleculares, a abordagem comportamental vive de especulações, inferências teóricas "frouxas" e debates de vieses e etc. Em contraparte, o que a vertente materialista, ou cognitiva, da neurociência diz é claro: maconha DEGENERA regiões cognitivas do cérebro, tanto de processos cognitivos intelectuais (matemática, lógica e etc) quanto de aprendizagem e memória a longo prazo. Em outras palavras, com o passar do tempo do uso você não vai virar um psicopata, um antisocial, nem perder a namorada como costuma ocorrer, por exemplo, com o uso do alcool e etc (pra falar tudo isso estou desconsiderando o que na literatura é chamado de "psicose canábica"); mas, em se tratando de efeitos cognitivos, você vai de fato ficando progressivamente demente, em níveis significativamente rápidos quando comparado com grupos controles. Os estudos mais recentes, que datam de 2011 até agora, tiveram resultados preocupantes respeitante a isso.

A questão é: o uso generalizado da maconha colhe suas primeiras evidências comportamentais só agora. Até 20 anos atrás encontrar um grupo de teste com uso crônico (fuma toda semana) composto por 30 pessoas era dificílimo, principalmente por questões morais, mas hoje vai começando a se tornar fácil. Logo, até mesmo a abordagem comportamental em um futuro próximo poderá revelar resultados que corroborem com a investigação orgânica, fisioanatômica, molecular e etc. Seja como for, na abordagem "in vivo" (e não comportamental), você já está pagando caro pelo uso.

Por fim, nada do que eu falei possui algum pressuposto legítimo de criminalização. O ato de proibir o uso é muito mais uma medida de policiamento moral que de proteção a um determinado conceito normativo essencial de saúde. Resta-nos ainda, portanto, o debate filosófico sobre a normatividade relacionada a psicotrópicos. Por isso sou absolutamente a favor da legalização (não só dela, mas da cocaína também). Fumemos, se assim desejarmos, mas saibamos qual abordagem científica é a melhor para se orientar.

- Benny