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domingo, 26 de fevereiro de 2017

Fenomenologia dos Estados Alcoolicos: a ressaca.


Fenomenologia quer dizer, stricto sensu, estudo dos fenômenos ocorrentes. E quando falamos de fenômenos pressupomos um sujeito presente, ou melhor, um sujeito de experiências. Sendo assim, não estamos falando da experiência realizada pelo cientista, mas da experiência comum, sensitiva, experiência de qualquer coisa. Mais ainda, é importante saber que se trata do estudo da experiência em si, e não da coisa que suscitou a experiência. Por exemplo, não se deve confundir a experiência da cor de uma maçã com a própria maçã. Nesse sentido, podemos definir a fenomenologia como o estudo objetivo das experiências, isto é, são as próprias experiências o objeto de pesquisa. Bom, mas quais experiências nos chamam a atenção para reflexão?

Antes de mais nada, na tradição filosófica experiência quer dizer, sobretudo, experiência mental. Assim, temos experiências mentais de cores, sabores, odores, angústias, dores etc. Mas também temos experiência de nós mesmos (self-experience como chamam alguns filósofos analíticos), experiência epistemológica (por exemplo, a fenomenologia hegeliana acerca do conhecimento) e muitas outras. Há, também, a fenomenologia mais consagrada, como a de Edmunt Husserl, de onde se derivou a fenomenologia existencialista. Vale também mencionar a "fenomenologia" dos dados imediatos da consciência, como a de Henri Bergson. Enfim, há diversas fenomenologias, cada uma com o seu método e pressupostos metafísicos. Aqui usaremos, brevemente, o método de perspectivas fenomenalistas da filosofia da mente. Faremos, portanto, exatamente o seguinte: tentar descrever, em caráter puramente qualitativo, as experiências mentais (perceptivas, psíquicas, sensitivas) dos estados alcóolicos. Nesse texto, especificamente, falaremos da ressaca.

Quando se fala de ressaca, fala-se, principalmente, sobre as suas características, ou experiências, de ordem fisiológica: boca seca, enjoo, diarreia, tontura, falta de apetite, cefaleia, etc. Contudo, observo que os efeitos mais abalantes da ressaca são muito mais de ordem psicológica que fisiológica. Fármacos e remédios caseiros, inclusive, dão conta de aliviar muito dos efeitos fisiológicos, mas os efeitos psicológicos persistem e são, talvez, piores que os efeitos fisiológicos. Há algo nos metabólitos resultantes da metabolização hepática do álcool que afeta, especificamente, o córtex cerebral, produzindo outro plano de fundo para os estados psíquicos corriqueiros - alguns autores fenomenalistas chamam esses estados de "sentimentos de franja" (fringe feelings). Por exemplo, ficamos "aereos", isto é, nossa atenção se torna frágil e custosa, prejudicando nossas tarefas diárias. Além disso, há, em toda a percepção do corpo, um estado de fraqueza muito mais que física, pois nos sentimos fracos num sentido também figurado, de impotência diante do mundo. É por isso, assim acredito, que os cobertores se tornam nossa caverna. E quem experimenta acender um cigarro nesse momento verá esse quadro psicológico piorar. E se formos mais a fundo, o nosso estado psíquico revelará coisas mais interessantes.

O que chamam de "ressaca moral" não é, rigorosamente, um sentimento de imoralidade quanto ao dia anterior. O que a ressaca promove psicologicamente sobre isso é o sentimento de imoralidade pura. Os fatos do dia anterior são, muitas vezes, normais. Sim, de fato, ocorre de termos feito coisas vergonhosas e etc. Contudo, muitas vezes não fizemos nada demais e, mesmo assim, o sentimento de imoralidade quanto a coisas comuns surge, e surge com força, a depender do volume de álcool ingerido. Estabelecer, racionalmente, que fizemos nada demais não é suficiente, não adianta. Uma vez que estejamos de ressaca, quase qualquer coisa serve para promover sentimento de culpa e vergonha. Se retirarmos uma imagem de culpa da cabeça outra certamente virá, mesmo que seja nada demais. Eu diria, metaforicamente, que é o castigo cristão por excelência: sentir culpa independente do que tenha ocorrido. Isso, por si só, é muito curioso e, correndo o risco soar um exagero retórico, parece ser um castigo criado por um agente intencional no mundo (os criacionistas poderiam usar essa ficha).

Ora, mas se fosse só isso eu nem estaria escrevendo esse texto, pois bastaria tomar umas doses e ir pra gandaia de novo que resolvia (pelo menos por esse dia). Enfim, a ressaca provoca ainda outra coisa: depressão. E não é uma depressão comum, pois eu desconheço a experiência da depressão que vem no laudo psiquiátrico. Trata-se de uma depressão que se confunde com pânico, terror. E se, no dia anterior, você ingeriu álcool concomitantemente com outras drogas, essa característica aterrorizante da ressaca se multiplica (principalmente com drogas consideradas não-depressivas, como ecstasy e cocaína). Há também, junto a isso, um certo aperto no peito, como de angústia, como se alguém tivesse morrido. Lembranças passam a ser evocadas involuntariamente. Imagens entram em nossa cena mental sem pedir nenhuma permissão e persistem. Logo que você tenta não ficar tão introspectivo, você passa a perceber um mundo em "cores frias". Parece que toda a culpa do mundo caiu sobre os seus ombros e que a qualquer momento um demônio entrará pela janela. Se fosse me dado a tarefa de nomear esse aspecto mais pesado da ressaca eu intitularia "estágio de terror depressivo". 

Não bastando, e considerando um volume ingerido de álcool maior ainda, o seu estado global de humor se torna volátil. Às vezes, o subir e descer escadas, ou algum outro exercício físico, te levanta o estado de espírito, isto é, alivia o sentimento de terror e culpa, mas logo que você se deixa ficar introspectivo, os pensamentos de tormento voltam, todo o processo recomeça. E essa volatilidade é rápida, abrupta e com muitos ciclos. Com isso, muitas vezes, eu me pego dizendo em voz baixa "já chega, não aguento mais", o que soa até engraçado, pois uma auto-resposta canalha também surge: "pra que eu fui beber tanto?". Você pode até pensar em se matar, mas até isso provoca medo. Você tem medo de tudo. E quando acha que esse estado mais pesado está melhorando, você teima em acender outro cigarro e tudo recomeça. Por isso, fico inclinado a dizer que os não-fumantes possuem ressacas relativamente mais leves, com menos enjoo e volatilidade psicológica.

Uma maneira que eu encontrei de aliviar estados mais intensos é com a companhia de alguém. Por isso, recomendo que quem experiencie esses estados mais profundos vá a encontro de algum amigo/a. A outra maneira é, paradoxalmente, aprender a aceitar e trabalhar esses estados a fim de poder distraí-los por conta própria. Seja como for, rápido não vai passar e exige-se certo esforço se não quiser ficar preso/a debaixo dos cobertores. Tal é a reza da cachaça.

Benny

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Black Mirror não é s/ tecnologia, nem s/ o que há de pior em nós: é sobre filosofia.


Nas últimas semanas me deparei com dois textos: um que atribuía a temática "tecnologia" e outro que atribuía a temática "sobre o que há de pior em nós mesmos" acerca do seriado Black Mirror.

Considero essas atribuições uma negligência grosseira, uma vez que desconhecem o que filósofos fazem, pelo menos, desde Descartes - ou até antes. Trata-se do que chamamos em filosofia de "experimentos de pensamento" (ou thought-experiment, como foi cunhado pelos filósofos de língua inglesa). Os experimentos de pensamento são uma poderosa ferramenta epistemológica presente em muitos argumentos filosóficos, sobretudo aqueles de teor metafísico. Grosso modo, são casos imaginários conjecturados a fim de colocarem em teste as nossas intuições. Por exemplo, no caso de Locke, é muito conhecido o experimento de pensamento de trocas de mentes do Príncipe e o Sapateiro, onde a intenção é forçar nossas intuições acerca dos critérios metafísicos de identidade pessoal.

Locke, contudo, é alguém já mais a frente na história do pensamento filosófico a usar essas ferramentas epistemológicas. Assim, precisamos retroceder ainda mais no tempo e evocar as Meditações Metafísicas de Descartes, obra que determinou para sempre o pensamento moderno. Nela Descartes busca provar, dentre outras coisas, a sua própria existência. Para tanto, ele elabora o que se pode chamar de "ceticismo metodológico" ou "dúvida metódica", onde tudo é colocado em dúvida a fim de podermos avaliar até mesmo os nossos paradigmas metafísicos mais profundos. Operando essa dúvida filosófica, Descartes propõe o experimento de pensamento do Gênio Maligno, que nada mais é do que a versão original dos cenários de filmes como Matrix, Oblivion ou Show de Truman. Em resumo, Descartes considera a possibilidade de que todas as suas percepções, ou mesmo pensamentos, estão sendo manipulados por um gênio maligno. Logo, tudo o que sabemos ou que poderíamos vir a saber, será falso. Feito isso, ele lança o argumento do cogito cartesiano, a saber, de que um gênio maligno (ou uma matrix, ou feixes perceptivos implantados em meu cérebro e etc.) pode nos enganar sobre tudo, exceto sobre o próprio engano. Noutras palavras, ainda que meu pensamento e percepções sejam ilusórios, estes últimos, verdadeiros ou ilusórios, são, em si mesmos, reais. Portanto, posso ter certeza de que, mesmo enganado, eu existo enquanto penso, me engano ou duvido.

O filósofo contemporâneo Hilary Putnam, muito antes desses filmes, também já havia elaborado um experimento de pensamento semelhante ao gênio maligno cartesiano, a saber, o experimento do cérebro numa cuba (http://www.iep.utm.edu/brainvat/). Para podermos ilustrar esse caso, basta imaginarmos um cérebro inserido num recipiente capaz de nutri-lo adequadamente. Além disso, é necessário imaginarmos que esse cérebro está sendo "alimentado" artificialmente com estímulos que simulam os estímulos externos do mundo. As conclusões acerca desse experimento são semelhantes ao do gênio maligno de Descartes (muitos aceitam a convenção de que é apenas uma outra versão do experimento do gênio maligno). É possível notar, portanto, que o uso da tecnologia nesses experimentos, muito antes de constituirem motivação ou roteiro semântico, são apenas cenários capazes de embasar sentidos ou discussões de segunda ordem, isto é, filosóficos.

Num recente livro intitulado Selves: philosophy in transit, Barry Dainton apresenta o experimento de pensamento do cérebro perdido (missing brain) ou, como prefiro, do Cérebro Roubado - uma versão deste experimento também já foi desenvolvida pelo filósofo Daniel Dennett. Se, em Descartes, o cenário da tecnologia não era presente, entre os filósofos mais contemporâneos (início, meio e final do século XX) os casos imaginários futurísticos são quase que regra. No experimento de Dainton, por exemplo, considera-se que, num dado dia, você acordou sem o seu cérebroi, pois ele havia sido roubado, enquanto você dormia, por sequestradores. Olhando no espelho é possível notar que o seu cérebro realmente foi roubado, pois na lateral de sua cabeça encontra-se uma placa de vidro que permite enxergar o que há por dentro do crânio. Assim, no lugar de seu cérebro está o que parece ser um conjunto de chips e fios. O telefone toca - são os sequestradores. Eles ordenam que você ligue a TV num determinado canal. Você pega o controle, liga a TV e lá está o seu cérebro, há quilômetros de distância, ligado a inúmeros feixeis "neurais" de silício. Os sequestradores, de imediato, exigem certa quantia para que seu cérebro seja devolvido. Nesse momento, lançamos a dúvida: "se o meu cérebro está há quilômetros de distância, por que a minha experiencia perceptiva ocorre aqui?" Não pretendo discutir os pormenores desse experimento, pois vocês podem encontrá-lo no livro na internet. O que importa para nós agora é demonstrar que o cenário tecnológico é contingente, ele não constitui temática alguma para o experimento do Cérebro Roubado. Muito antes, a temática é metafísica: se a minha mente, ou a minha consciência, encontra-se no meu cérebro, por que as minhas sensações poderiam operar em outro lugar? Para levantarmos esse questionamento, o cenário tecnológico não é obrigatório, ele apenas é mais bem concebível. Poderíamos, por exemplo, substituir o cenário tecnológico do Cérebro Roubado por um cenário mágico ou mesmo espiritual: aqui a imaginação está livre, pois o que importa, quando realizamos um experimento de pensamento, não são cenários fictícios, mas nossas intuições. Dizendo de outro modo, experimento de pensamento são ferramentas argumentativas.

Todos os episódios em Black Mirror sobre codificações de mentes em outros substratos, das mentes ou sujeitos psicológicos duplicados ou sobre a dúvida de se saber se a cópia comportamental de meu marido é, ou não, o meu marido e etc., sem exceção, já foram trabalhados, ou originalmente desenvolvidos, em filosofia. Aqui temos, respectivamente, conceitos filosóficos como o de múltipla realizabilidade da mente, critérios de identidade pessoal sincrônica e diacrônica e behaviorismo filosófico, bem como o escopo presumido, em todos os casos citados, do funcionalismo computacional. Tais conceitos, sem outra possibilidade, são temas em filosofia. Mais especificamente, temas em metafísica. Sim, há episódios que não tratam sobre metafísica, mas, nesses casos, ainda estamos dentro de território filosófico, tal como o primeiro episódio da série, uma cinematografia sobre ética. O segundo episódio da série, por exemplo, trata, conscientemente, ou sem perceber, de uma querela filosófica amplamente discutida na atualidade, qual seja: a questão em filosofia política sobre opressões de classe e concessões simbólicas (uma analogia ao episódio seria a questão filosófica sobre a positividade real de uma conquista do casamento gay numa sociedade estruturalmente determinada por classes). Outro episódio, também da primeira temporada, trata sobre o estatuto da memória: por exemplo, seria o esquecimento uma faculdade positiva ou negativa do nosso psiquismo (Nietzsche trata disso com especialidade)? Enfim, se passarmos por todos os episódios nenhum deixará de ter, como protagonista, uma discussão filosófica.

Mas, daí, há ainda os devaneios para preencher views de sites e blogs que pretendem ganhar dinheiro (nada contra, mas...). Noutra interpretação, disseram que o seriado é "sobre o que há de pior em nós mesmos". No texto até citam a filosofia como temática. Em verdade, é impossível eu dizer aqui que o texto está errado. Ele não está, a rigor, errado, mas retoricamente sim, pois esquece que a temática da própria natureza humana também é filosófica, por exemplo. Nesse caso, não é mal interpretação, mas apenas a leve negligência de subrepresentar a filosofia nessas questões. 

Tendo tudo isso em consideração, devemos concluir que Black Mirror é a primeira série genuinamente filosófica. Se tínhamos, em grande número, séries de médicos, juristas, bombeiros e policiais, agora, finalmente, podemos aproveitar uma série propriamente de filosofia. Isso é fantástico. Isso também deixa evidente o quão importante é, dada as atuais conjunturas da nossa educação, a filosofia para a plena formação de um indivíduo na modernidade - exceto, claro, se acharmos que as temáticas de Black Mirror são triviais.

- Benny

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Nosso cérebro muda, mas nossa existência persiste. Por quê? (parte 1)



Após uma certa quantidade de anos, todas as moléculas do nosso cérebro são trocadas, isto é, nosso sistema nervoso central é renovado materialmente de tempos em tempos por meio de mecanismos de síntese e reciclagem molecular. Podemos dizer, inclusive, que não só as moléculas são renovadas, mas também grande parte das configurações espaciais que as mesmas apresentam nos meios intracelulares se reconfiguram. Indo mais longe, podemos dizer, num nível mais alto de organização funcional, que o tecido neuronal, com suas ligações dendríticas, envoltórios mielínicos e assim por diante, alteram-se ou sofrem degeneração - sabemos que a partir dos 25 anos tem início a degeneração neural. Contudo, a despeito de todas as alterações e degenerações, persistimos sentindo que continuamos a ser a mesma pessoa. Por quê? Como isso é possível?

Muito antes do advento da neurobiologia celular, filósofos do século XVII já discutiam problemas relacionados. No caso, o problema apresentava-se no plano metafísico: por que continuamos a ser a mesma pessoa - ou entidade mental se preferirem - ao longo do tempo? Tal era o icônico problema da identidade pessoal. Não se tratava da identidade pessoal como é entendida ordinariamente hoje, a saber: identidade geográfica, filogenética, social ou cultural. Para filósofos do século XVII como John Locke, falar de identidade possuía um sentido muito mais forte, tal como a identidade numérica proposta por Leibniz. Grosso modo, Leibniz definia a identidade como uma única e mesma coisa. Essa definição diverge, portanto, da identidade qualitativa. Nesse caso, algo pode ser qualitativamente idêntico a outra coisa sem, no entanto, ser numericamente idêntico. Por exemplo, tenho em minha frente um exemplar de Visão a Partir de Lugar Nenhum de Thomas Nagel. Esse exemplar que tenho é qualitativamente idêntico aos demais exemplares vendidos (considerando que não sofreram deteriorações ou defeitos de fabricação), porém não podemos dizer que são numericamente idênticos. Coisa semelhante, porém decisivamente complicada, ocorre com nós numa perspectiva temporal: não somos qualitativamente a mesma pessoa de tempos atrás, mas somos, contudo, ou aparentemente, numericamente a mesma pessoa. 

Em uma primeira reflexão, a identidade numérica parece não suscitar problemas. Logo, se não pensarmos com cuidado, chegaremos à conclusão de que o fato de sermos numericamente a mesma pessoa de ontem é um truísmo (uma verdade trivial). Contudo, se examinarmos mais de perto o problema, veremos que há paradoxos que perpassaram séculos sem solução. Ainda hoje, o problema da identidade pessoal ao longo do tempo move uma densa indústria acadêmica, onde diferentes filósofos apresentam teses a respeito do assunto. 

Para sermos capazes de compreender a problemática identitária que foge ao truísmo, precisamos recorrer a exemplos. Vejamos um deles:

Sabemos que os hemisférios cerebrais possuem potencial autonomia funcional. Em outras palavras, se seccionarmos o cérebro em dois hemisférios, ambos continuarão funcionando; contanto, claro, que eles sejam alocados em ambiente e nutrição específica (por exemplo, em uma solução salina com pH e suporte nutritivo correto). É, por exemplo, o caso real de Tyler Plotkin, um bebê americano de um ano e alguns meses que teve um dos hemisférios cerebrais completamente removido numa operação cirúrgica chamada hemisferectomia. Aos 5 anos, então em 2009, seus pais diziam que Tyler levava uma vida praticamente normal. Diversos outros casos são documentados na literatura, sobretudo de hemisferectomias resultantes de tratamento de epilepsia. Esses casos nos levam a crer que, no futuro, quando dispusermos da técnica cirúrgica necessária, seremos capazes de realizar transplantes de hemisférios cerebrais. 

Há, contudo, um violento paradoxo: se, nesse futuro distante, o hemisfério cerebral de Tyler removido fosse colocado, digamos, num corpo sem hemisférios cerebrais para que os médicos pudessem seguir investigando as causas de sua epilepsia, poderíamos afirmar que Tyler, enquanto pessoa, ou entidade mental, teria sua existência duplicada (ou ramificada)? Chamemos o Tyler original de "Tyler A" e o novo Tyler de "Tyler B". Provavelmente há alguém pensando que, ainda que fossem a mesma pessoa num pequeno lapso de tempo, as novas vivências fariam resultar duas pessoas numericamente distintas. Contudo, mesmo com essa objeção, precisamos admitir que em algum momento, por pequeno que seja, quando ambos os Tyler's acordaram da cirurgia, eram exatamente a mesma pessoa. Mas como é possível que uma única pessoa possam ser duas? Enfim, o barraco teórico estava armado.

Vale dizer que os filósofos da identidade pessoal não se restringem ao exemplo da hemisferectomia. Há outros exemplos diversos, tais como do teletransporte falho, da cópia de mentes, da junção cerebral e etc. O que todos esses exemplos querem dizer é que ser idêntico a si mesmo ao longo do tempo não é tão óbvio assim: deve existir algo, ou uma causa, que nos faça persistir temporalmente. Mais do que isso, os filósofos da identidade pessoal também pretendem encontrar uma solução, ou um critério, para sabermos quando a existência de uma pessoa tem início e fim. Indo mais longe: também se perguntam, como Eric Olson, se importa que "eu" ou "você" existamos como pessoa ou como alguma outra coisa. Também há a afirmação de Derek Parfit de que "a nossa identidade ao longo do tempo não importa". Estranho? Isso é porque estamos apenas no território filosófico da identidade pessoal ao longo do tempo. Vizinha dessa mesma querela está a problemática que a filósofa Lynne Baker e o filósofo Barry Dainton anunciam, a saber, o que somos fundamentalmente?

Dissemos acima que o problema da identidade pessoal não é uma questão de identidade social, cultural, mas sim de identidade metafísica. E o que é metafísica? Grosso modo, é 1) o estudo da realidade para além da subjetividade contida nos modelos de explicação; e 2) o estudo da realidade sem a exigência obrigatória de observação empírica. Se, por exemplo, a ciência explica elementos da realidade a partir de previsões atestáveis e apreciação de fenômenos observáveis etc., a metafísica, por outro lado, procura explicar a realidade nela mesma ou independentemente de apreciação empírica - pois nem sempre é possível colocar o alvo de estudo num telescópio ou laboratório. O cientista, como Newton, pergunta-se "como posso prever o momento da queda ou descrever as propriedades mecânicas de uma porção da matéria". O metafísico, por outro lado, pergunta-se o que é a matéria independentemente das propriedades e relações que podemos postular sobre. Isso não deve soar estranho. Por vezes, sobretudo quando fazem especulação teórica, os físicos, biólogos e químicos são metafísicos, dado que não possuem, segundo as exigências científicas modernas, acesso empírico ao objeto de estudo - por exemplo, as deduções teóricas que tentam fazer a respeito do interior dos buracos negros. Quando estamos diante do problema da identidade pessoal temos um obstáculo semelhante aos buracos negros que nos coloca em território metafísico: não há como ter acesso empírico à mente das outras pessoas. Logo, temos de tentar deduzir os critérios de identidade pessoal ao longo do tempo.

Como não queremos alongar muito o texto, pois vamos dividir nossa discussão em diferentes "capítulos", iremos agora ver apenas uma das teses propostas do problema. Para tanto, é oportuno iniciarmos com um exemplo famoso na literatura sobre a identidade pessoal: o príncipe e o sapateiro. Este tipo de "experimento de pensamento" foi desenvolvido pela primeira vez por Locke em seu Ensaio. Trata-se de buscar mostrar que o critério para a identidade pessoal ao longo do tempo é a memória. Assim, parafraseando Locke, ele diz: se, porventura, a alma de um príncipe, junto às suas memórias e demais atributos mentais, passasse a habitar o corpo de um sapateiro, estaríamos dispostos a admitir que o sapateiro será agora, enquanto pessoa, o príncipe, ainda que, como homem, continue a ser o sapateiro. Nessa experiência mental, Locke quer distinguir o ser humano da pessoa. Em outras palavras, um ser humano particular não é uma pessoa. A pessoa, segundo Locke, é determinada pelos seus atributos mentais, em especial a sua memória, independentemente do seu corpo ou indivíduo de uma espécie particular. O que nos faz ser a mesma pessoa de ontem, portanto, não envolve a nossa continuidade espaço-temporal ou física, mas sim a nossa continuidade mental. Se formos capazes de lembrar das nossas vivências ou estados passados, então a nossa identidade se prolonga tão longe quanto se prolongar a nossa memória.

Como consequência, uma pessoa num dado momento é a mesma num momento futuro, segundo Locke, se esta é capaz de recordar das vivências daquela, não importando o que mais mude. É um critério simples, que dispensa sentenças ceteris paribus, e que parece, a princípio, satisfazer nossa intuição. De fato, essa intuição foi o alicerce das teorias contemporâneas mais famosas, tornando-se um ponto de passagem quase que obrigatório nos debates filosóficos acerca da persistência pessoal. Ademais, a tese de Locke é a “ancestral” de todas as teses que dispensam a identidade de uma substância, seja ela imaterial ou material. Os critérios de pessoalidade, bem como de sua persistência, estão, portanto, para além de um substrato específico ou geral, dependendo apenas de características psicológicas. Isso significa dizer que uma mesma mente, se entendemos a mente como algo a mais para além dos fenômenos psicológicos, pode abrigar diferentes pessoas. Para tanto, basta que os eventos mentais de uma mente particular possua continuidade mnêmica (ser capaz de recordar ações ou experiências) com uma outra pessoa num outro momento.


Mais uma implicação do critério mnêmico de Locke nos chama a atenção. Pense, por exemplo, em pessoas com doenças neurodegenerativas como o Alzheimer. Em geral, a despeito dos esquecimentos, não estamos disposto a dizer que um familiar com Alzheimer deixou de ser o nosso familiar. Mas diríamos o mesmo, contudo, se esse mesmo familiar perdesse toda a memória de vivências passadas? Se ele esquecesse de tudo aquilo que viveu para além dos 5 anos atrás imediatos, ainda estaríamos disposto a assumir que é a mesma pessoa? Outro problema: por não nos lembrarmos da nossa infância com dois anos de idade diríamos que o menininho ou menininha do álbum de fotos não somos nós? Retrocedamos ainda mais: não já fomos um bebê? Um feto? Quando, segundo o critério lockeano, nossa existência enquanto pessoas no mundo se iniciou?


- Benny