Pular para o conteúdo principal

Postagens

Postagem em destaque

O que é Pampsiquismo?

Ao procurar bibliografia confiável em língua portuguesa do assunto, notei que temos pouca coisa disponível. Quando muito, temos capítulos de livros de filosofia da mente traduzidos que mencionam o pampsiquismo sem, todavia, tomá-lo como problema alvo. A minha primeira referência em língua portuguesa do assunto, por exemplo, foram os trechos onde Thomas Nagel defende a teoria do duplo-aspecto — que pressupõe o pampsiquismo — em Visão a Partir de Lugar Nenhum. Assim sendo, decidi, por conta própria, em escrita livre, elucidar em nossa língua essa doutrina metafísica que, em teoria da mente, vem sendo uma tese cada vez mais discutida.
Devemos, já de início, buscar distinguir o pampsiquismo do animismo. O animismo é a tese de que coisas tomadas habitualmente como desprovidas de vida psíquica podem possuir intencionalidade semelhante a nossa. Em uma de suas expressões, talvez a mais extremada, o animismo advoga espiritualidade para tudo o que encontramos na natureza (p.ex.: objetos, proce…
Postagens recentes

Fenomenologia dos Estados Alcoolicos: a ressaca.

Fenomenologia quer dizer, stricto sensu, estudo dos fenômenos ocorrentes. E quando falamos de fenômenos pressupomos um sujeito presente, ou melhor, um sujeito que tem a experiência do fenômeno. Sendo assim, não estamos falando da experiência realizada pelo cientista, mas da experiência comum, sensitiva, experiência de qualquer coisa. Mais ainda, é importante saber que experiência e fenômeno,  dentro de um viés psicológico, são uma única e mesma coisa, sendo diferente, apenas, o objeto que suscitou a experiência ou fenômeno psicológico. Por exemplo, não se deve confundir a experiência da cor de uma maçã com a própria maçã. Nesse sentido, podemos definir a fenomenologia como o estudo objetivo das experiências, isto é, são as próprias experiências o objeto de pesquisa. Bom, mas quais experiências nos chamam a atenção para reflexão?

Antes de mais nada, na tradição filosófica experiência quer dizer, sobretudo, experiência mental. Assim, temos experiências mentais de cores, sabores, odores, …

Black Mirror não é s/ tecnologia, nem s/ o que há de pior em nós: é sobre filosofia.

Nas últimas semanas me deparei com dois textos: um que atribuía a temática "tecnologia" e outro que atribuía a temática "sobre o que há de pior em nós mesmos" acerca do seriado Black Mirror.
Considero essas atribuições uma negligência grosseira, uma vez que desconhecem o que filósofos fazem, pelo menos, desde Descartes - ou até antes. Trata-se do que chamamos em filosofia de "experimentos de pensamento" (ou thought-experiment, como foi cunhado pelos filósofos de língua inglesa). Os experimentos de pensamento são uma poderosa ferramenta epistemológica presente em muitos argumentos filosóficos, sobretudo aqueles de teor metafísico. Grosso modo, são casos imaginários conjecturados a fim de colocarem em teste as nossas intuições. Por exemplo, no caso de Locke, é muito conhecido o experimento de pensamento de trocas de mentes do Príncipe e o Sapateiro, onde a intenção é forçar nossas intuições acerca dos critérios metafísicos de identidade pessoal.
Locke, con…

Nosso cérebro muda, mas nossa existência persiste. Por quê? (parte 1)

Após uma certa quantidade de anos, todas as moléculas do nosso cérebro são trocadas, isto é, nosso sistema nervoso central é renovado materialmente de tempos em tempos por meio de mecanismos de síntese e reciclagem molecular. Podemos dizer, inclusive, que não só as moléculas são renovadas, mas também grande parte das configurações espaciais que as mesmas apresentam nos meios intracelulares se reconfiguram. Indo mais longe, podemos dizer, num nível mais alto de organização funcional, que o tecido neuronal, com suas ligações dendríticas, envoltórios mielínicos e assim por diante, alteram-se ou sofrem degeneração - sabemos que a partir dos 25 anos tem início a degeneração neural. Contudo, a despeito de todas as alterações e degenerações, persistimos sentindo que continuamos a ser a mesma pessoa. Por quê? Como isso é possível?
Muito antes do advento da neurobiologia celular, filósofos do século XVII já discutiam problemas relacionados. No caso, o problema apresentava-se no plano metafísico…

A Negatividade do Amor e a sua Insuficiência Ontológica.

(Para os leitores mais familiarizados com a temática dos primeiros parágrafos: o que consta a seguir não fará apelo ao eliminativismo fisicalista. Muito pelo contrário, acredito que podemos questionar o arcabouço conceitual do senso comum para a vida psíquica sem termos de, sequer, consultar um neurocientista. Eu aposto em metodologias como afenomenologia objetivade Thomas Nagel[1])

A maioria das pessoas nunca ouviram falar o que seria umapsicologia de senso comum. Trata-se de um conjunto de crenças sobre a mente que funciona como uma teoria, mas que, todavia, não é tomada como tal. Em outras palavras, temos um arcabouço conceitual para referenciar os estados mentais de modo mais ou menos sistemático. Nós dizemos que tal pessoa está triste, que tal pessoa está alegre, e assim por diante, segundo critérios mais ou menos conscientes. Boa parte da psicoterapia, inclusive, opera por meio desses conceitos ordinários sobre a vida psíquica. Uma boa explicação do que seria a "folk psychol…