Real Time Web Analytics Violência Semântica: Dezembro 2009

domingo, 27 de dezembro de 2009

Rebanhos do Espetáculo


Em meus dias de bebedeiras, boemia e ressaca insurge algo, que eu gostaria de chamar de angústia, mas talvez não seja realmente isso. O que de fato ocorre é que depois de tantas loucuras o dia seguinte é coberto de um vazio apaixonante, como uma catarse. Não chega a ser tão dramático como parece, é apenas estranho. Nessas horas, questiono meu vício pelo álcool se realmente vale a pena como, também, questiono o absurdo da vida. Questões que em vão ficam espalhadas por aí no meu inconsciente e que, às vezes, em uma hora inesperada, aproveita para me atormentar. Este é um segundo mundo, um mundo abstrato, em que o que antes me deixava irritado e de saco cheio, passa a ser frio, sem sentido, distante. Esta é a hora privilegiada para pensar grande, transcender o que temos apenas como representação.

Propagandas, ideologias, culturas feitas em laboratórios, missas de domingo, consumo, burocracia, status social, emprego, carreira profissional, moda, necessidade de atenção, economia, fronteiras, bandeiras, políticos, subway... tudo representação de um grande espetáculo em que, se colocado como observador e pensar um pouco mais que o normal, você verá que nada, nenhum pingo de todas essas culturas, fazem algum sentido. Pessoas andam pra lá e para cá, preocupadas com tudo, andam apressadas nas ruas carregando suas culturas nas roupas e cabelos, levantam da cama apressadas, ansiosas, esperando que um dia tudo vai mudar, que vai ter os meios completos que erradicarão toda a dor e sofrimento. Sobrevivendo em um mundo de contradições, ainda encontram tempo para moldar suas personalidades como um artista molda sua escultura. Desejam, à todo custo, vencer. Acreditam freneticamente que suas frágeis vontades irão aliviá-las do mal que é, justamente, inerente a sociedade do espetáculo.

Estas pessoas - que vivem em um delírio constante - sentem-se fortemente incomodadas quando suas mentiras são questionadas. E buscam, com toda a insensibilidade possível, deturpar aqueles que, com tanto esforço procuram transformar a fria e cruel sobrevivência em uma vida autêntica. Estuprados pelos instrumentos do espetáculo, mergulharam suas vidas em um mundo de labirintos. Com muito temor entregaram sua autenticidade à mínima ameaça, como covardes. Desejam serem notadas da pior forma possível, sustentando a caricatura idêntica dos seus semelhantes: a caricatura da decadência. Demonstram um comportamento peculiar, encharcado de moralismos baratos. Às vezes, quando um pouco mais inteligentes, falam de ética. Quando não, preferem apenas representar sua ignorância com uma frase: "Eu acho isso"; "Eu aquilo". Não importam o quanto se esforcem, estão imersos em um poço de trevas e, ainda sim, querem luz em um mundo de escuridão.

O mais irônico de tudo isto é que estas pessoas colecionam submissões, amam ser submissos à algo. São submissos até à sua própria vontade! Uma salada mista de resignação! São escravos de cada mera representação. Quando não estão saciados de tanta tirania, constroem uma nova, com novas cores, mais moderna. A cada nova submissão sentem que estão mais superiorires, crescidos e maturos. Esperando por algo que nem mesmo sabem, vão tocando a vida, em uma inércia que mata muito antes de ter um laudo médico. O símbolo principal de suas submissões é a religião, o consolo medíocre e infantil destes escravos. A possibilidade de se encontrarem nessa imensidão de merdas é escassa. Quanto mais tentam descobrirem seu eu, mais pequenos e desprezíveis ficam pois procuram esta resposta na escória de tudo aquilo que transforma o mundo em uma infantilidade generalizada.

De final, gostaria de citar um aforismo de alguém grande na história:

Nada mais consegue assustá-lo ou emocioná-lo. Ele cortou todos os milhares de fios da vontade que nos ligam ao mundo e nos puxam para frente e para trás (cheios de ansiedade, carência, raiva e medo), num sofrimento constante. Sorri e olha calmamente para trás, para a ilusão do mundo, indiferente como um jogador de xadrez no final de uma partida. - Arthur Schopenhauer

- Crowley

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Sobre uma nova proposta...


O Guará Underground, no dia 19 de dezembro, completou um ano de existência. Foram muitos os episódios que marcaram a memória do coletivo. Lembrar de cada um deles agora talvez não seja a questão. Todavia, o que de fato precisamos lembrar é que o GUG, depois de todas as vitórias e derrotas que se passaram, pode constituir, agora, uma família. Não estamos falando daquela família arcaica da qual fomos criados em que a mulher é um servo e a hierarquia é sagrada. A família que o GUG agora representa é formada por parceiros e companheiros diretos, sem cláusulas e líderes. Uma família autêntica, nascida da necessidade de união, para realizar o verdadeiro underground.

Dizer o que o GUG pretende como objetivo é uma tarefa um tanto subjetiva. Preferimos dizer que temos um subjetivo como meta, nem obscuro nem claro, mas espontâneo. Sabemos, até agora, que a realidade que nos coage é fria, cruel. Esta angústia que pode estar presente em um ou outros é uma forte arma contra nossos "subinimigos". O militante do GUG é aquele que negou a ausência de sentido das coisas da maneira mais radical: O absurdo da vida como santuário de ódio e reflexão. Dizer isso não significa que somos formados apenas por ateus niilistas, pois a necessidade de união nasceu para questionar nossas lentes culturais. Contudo, nossos princípios podem dizer muita coisa, pois são eles nossos meios e fins. Considerando isto, o GUG teria como subjetivo a destruição de tudo aquilo que coage de alguma forma, direta ou indiretamente, o ser humano.

Até hoje, não firmamos compromisso com nada. Ou melhor, nosso compromisso é, justamente, O Nada. Dizer isso tudo nos leva a concluir: que merda é essa? É a merda que sem querer sai algo, da insurreição mais profunda de nossos pensamentos. Não falamos de revolução, mas denunciamos cada escória da sociedade, daquilo que foi criado ingenuamente por poucos velhacos entupidos de ganâncias infantis. Aquilo que o GUG diz em voz alta é o que todos têm preso na garganta, em silêncio. Cabe a nós, de alguma forma, quebrar esse silêncio que nos submete as mais asquerosas culturas. Trata-se de fazer a contracultura de fato, de apresentar esta proposta a sociedade nas cores que refletem o underground, construindo uma sociedade de contracultura generalizada!

- GUARÁ UNDERGROUND, 19 de dezembro de 2009.