Real Time Web Analytics Violência Semântica: Junho 2012

quarta-feira, 20 de junho de 2012

O Jurista e seu Disfarce

 
No profissão reporter da Globo, a jurista de meio-mestrado e enfeitada com cristianismo três-quartos diz:

"...se todas as pessoas que estão em completo desamparo estatal e, portanto, em pobreza obrigatória, começarem a se apropriar do patrimônio alheio viveríamos em uma verdadeira anarquia."

A insistência histórica em falar de "anarquia" em sentido aterrorizantemente negativo é uma tendência fantasiosa de querer que as aparências continuem vigorando para exercício de uma ordem particular, arbitrária. Isto é, a tal "anarquia" é um fenômeno, desde sempre, iminente, pois representa nada menos que as consequências diretas das contradições sociais que o Iluminismo, paradoxalmente, visava erradicar. A lei, o policiamento, a moralidade fundada no "amor", em suma, o Estado - e a pobre coitada da jurista que acha que o Estado não é ela - serve, portanto, para silenciar impulsos perfeitamente naturais de exerção de poder concreto (falo de força física, agressão, homicídio) potencialmente "anárquicos", pois a livre-expressão é assegurada, essa resmungação que muito tem de inofensiva e que é, sem necessidade de espanto e sentimento de vitória, jurídicamente apreciada.

Não surpreendentemente, o que a jurista na verdade disse foi: "se eu te condenei à pobreza assim você deve permanecer, caso contrário haverá 'anarquia'".

O que se teima reconhecer é que em uma leitura lógica o crime não só é legítimo como é a única saida. Arbitrariedade, e isso é auto-evidente, é igual a ela mesma: arbitrariedade implica em arbitrariedade. Como a moralidade fundada no amor mesmo diz: "violência [enquanto arbitrariedade] só gera violência". Transpondo este ditado em uma outra modalidade de arbitrariedade com mesma valoração teríamos "desigualdade social só gera desigualdade social". A seguir, sem outra saida, com os mesmos valores de arbitrariedade, portanto mesmo valor lógico, teríamos: "desigualdade social só gera criminalidade". Este raciocínio nos guia para uma só conclusão: um indivíduo quando pratica atos julgados como crime nada menos faz que responder contra o véu das aparências, ou ainda: o crime é o resgate momentâneo da realidade negada. Naquele ato de terror para o Estado há muito de "objetivo", de verdade, de legítimo, de justiça, de fenômeno, por assim dizer, "científico", pois, em vez de ser um evento monstruoso, feio, horrendo e etc, é antes o espetáculo de uma realidade efetivamente experienciada e negada ao mesmo tempo.

A "homeostase" proporcionada pela boa jurista é, na verdade, uma homeostase de fachada, paliativa, uma máscara; usando novamente termos de biologia: uma homeostase forçada com anti-inflamatórios potentes contra um paciente mórbido. E os sintomas mascarados, que é a verdade objetiva e legítima portanto, não poderia ser outra coisa se não o crime, esta coisa que, de tão natural e necessário, legitima e heroiza o criminoso, este afirmador, guardião da realidade.

Se trata de distribuir morfina - ou flores, leis, amor, cristianismo... seja como quiser... - para mascarar a guerra: eis a profissão de arbitrariedade do bom jurista.

Em resposta, o Facção Central já tem dito: 

"É um milagre o carrefour não ser saqueado e as árvores do iberapuera não ter rico enforcado... [contudo] ...o ódio atravessou a fronteira da favela, pra decretar que paz é só em baixo da terra...Jesus já fez sua parte e furaram com prego sua mão, em tempo de guerra a Kalashnikov é a oração..."  (trechos das músicas Discurso ou Revolver e Espada no Dragão).

- Benny


sábado, 9 de junho de 2012

Stirner - Minhas Relações


"A propriedade privada vive por obra e graça do direito. Só nesse âmbito ela tem sua garantia - a posse ainda não é propriedade, só se torna 'coisa minha' com a aprovação do direito; não é um fato (un fait, como Proudhon pensa), mas uma ficção, uma idéia. Uma coisa não é minha graças a mim, mas graças ao direito." - Stirner, O Único e a Sua Propriedade. Tradução de João Barrento; Martins Fontes, 2009. Página 324.

"O Estado não admite que o homem possa ter relações diretas com o homem; ele tem de ser sempre intermediário, tem de...[portanto] intervir. O Estado tornou-se aquilo que Cristo, os Santos, a Igreja eram: nomeadamente 'íntermediário'. Separa o homem do homem para se colocar entre eles como 'espírito'." - Stirner, ibidem. Página 328.

"Todavia o que acontece com meu trabalho material se passa também com o intelectual. O Estado permite que eu use e valoriza minhas idéias e as comunique (estou valorizando-as pelo fato de os que me ouvem me honrarem com isso etc.) - mas só enquanto minhas idéias forem as suas. Se, pelo contrário, eu alimentar idéias que ele não possa aprovar, isto é, que não possa fazer suas, de modo algum me permitirá valorizá-las, oferecê-las à troca, pô-las em circulação. Meus pensamentos só são livres se me forem concedidos por graça do Estado, ou seja, se forem pensamentos do Estado. Só me deixa filosofar livremente se demonstrar ser 'filósofo do Estado'; contra o Estado não posso filosofar, embora ele esteja disposto a aceitar meus 'estímulos' às suas 'fraquezas'. Concluindo: por um lado, posso comportar-me como um eu generosamente autorizado pelo Estado, munido de seu diploma de legitimidade e do passaporte de sua polícia; por outro, não posso valorizar o que é meu a não ser que se prove que essa minha propriedade é também a sua, e que eu a tenho com concessão feudal do Estado. Meus caminhos têm de ser seus caminhos, senão ele me colocará sob sequestro; as minhas idéias têm de ser as suas, senão ele me amordaça." - Stirner, ibidem. Página 329.