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O que é Niilismo? Uma definição a fundo.


Por Benilson Nunes

As principais enciclopédias online de filosofia, tais como a Stanford, a Internet Encyclopedia of Philosophy e a Routledge, oferecem visões, ao nosso ver, excessivamente contextuais, ou, por isso mesmo, pouco gerais ― o que não é, em todo caso, ruim. Talvez isso ocorra em função da própria autoria do artigo que acompanha os verbetes não ser, em si, niilista, necessitando, assim, de uma explicação tendo como referência exemplos históricos específicos. Dito de outro modo, não se tenta oferecer a perspectiva niilista, mas apenas perspectivas em seus recortes autorais ou disciplinares. Decerto, essa é uma atitude parcimoniosa positiva, mas que deixa de oferecer uma visão que possa ser compreendida independentemente do conhecimento que se tenha da história da filosofia.

É talvez verdade que definições gerais serão, de todo modo, imprecisas, dado que o niilismo, a despeito de não aparentar, não é uma doutrina de fácil compreensão. Mesmo as enciclopédias o confunde, por vezes, com outras doutrinas: por exemplo, o ceticismo, o pessimismo, o relativismo epistemológico, etc.. Contudo, isso não deveria nos impedir de tentar, aos trancos e barrancos, de elaborar uma definição geral.

Niilismo é uma doutrina, em última análise, cosmológica ― e assim defenderemos. A própria etimologia da palavra já nos fornece uma pista disso: nihil, do latim, significa, precisamente, “nada”, isto é, não um “nada” relacionado a algo, mas “nada” pura e simplesmente, um nada total, cósmico. Um aportuguesamento possível seria “nadismo”. Por uma questão de elegância, talvez, preferimos, quase sempre, o termo conjugado com o latim.

Apesar das especialidades niilistas, tal como o niilismo metafísico, o niilismo epistemológico e o niilismo moral, esse “nada” envolvido no significado do termo não deve ser tomado, tão somente, em um campo específico. Devemos, de antemão, generalizá-lo para tudo o que existe e que pode ser pensado, de tal forma a chegarmos no núcleo duro, ou mais fundamental, da doutrina.

As enciclopédias, como já dissemos, e seguindo um caminho diferente daquele que propomos aqui, trabalha o conceito sempre em suas especialidades. A enciclopédia Routledge, por exemplo, enumera, em uma de suas subseções, o niilismo existencial. A Internet Encyclopedia of Philosophy contém o niilismo nietzschiano (ou o niilismo “metodológico” que não é, em última análise, niilista). A enciclopédia Stanford, por sua vez, contém o conceito niilista apenas como subseção do verbete “O significado da vida”. Em todas essas referências, vale dizer, enumera-se também o niilismo mais bem conhecido, a saber, o niilismo moral, a ideia de que não há valores morais com validade imanente, o que implica negar a objetividade dos critérios de julgamento moral. Assim, não haveria, sequer, como colocaria o ceticismo de Descartes, uma “moralidade provisória”, pois não é possível uma moral em todo caso.

Tentando, brevemente, oferecer uma visão geral, a enciclopédia Stanford coloca:

"One straightforward rationale for nihilism is the combination of supernaturalism about what makes life meaningful and atheism about whether God exists. If you believe that God or a soul is necessary for meaning in life, and if you believe that neither exists, then you are a nihilist, someone who denies that life has meaning. Albert Camus is famous for expressing this kind of perspective, suggesting that the lack of an afterlife and of a rational, divinely ordered universe undercuts the possibility of meaning."

Supernaturalismo seria o naturalismo, enquanto postura epistemológica, levada até as últimas consequências. Ser um naturalista significa ser alguém que mantém algum compromisso com os dados naturais, isto é, os dados empíricos ou aqueles tradicionalmente associados às pesquisas das ciências naturais. Um supernaturalista, nesse sentido, será alguém que nunca se deixa avançar para além do que os dados brutos de uma investigação empírica fornece. Assim, a atribuição de valor ou significado para a realidade seria impertinente, ou mesmo uma ficção útil, mas nunca uma atribuição de algo efetivamente real ― a menos, claro, que fosse possível verificar, no próprio mundo natural, observado, e não no reino do a priori, os valores em si, tal como a justiça, o belo, etc. O supernaturalismo, dessa forma, parece ser o gatilho epistemológico, ou metodológico, para o niilismo, dado que ele leva a concluir que tudo aquilo que não possa ser positivamente (ou naturalmente) avaliado é subjetivo ou ficcional.
               
Mas o que o supernaturalismo, se concordarmos que ele é a causa epistemológica para a doutrina que apresentamos, ocasiona precisamente? Ou, dizendo de outro modo, qual é a definição exata de niilismo? Eis o que propomos.

Niilismo é uma doutrina filosófica, no sentido de ser geral e aplicável a diversos campos do saber ou da realidade, segundo a qual nada é constituído por um propósito, sendo a própria realidade, naquilo que possamos conceder que exista, encerrada no que é imediatamente.  Toda atribuição de sentido ou valor é, portanto, ficcional. Isso não implica, como muitos artigos e enciclopédias colocam, um abandono ou descompromisso com a verdade. Niilismo, por mais que esteja associado a alguma dose de ceticismo, não é ceticismo, muito menos ceticismo absoluto. O niilismo, antes de tudo, detém uma verdade, a saber, a verdade da existência da subjetividade, de sujeitos ou ao menos de si próprio (solipisismo), do contrário não estaria apto a afirmar nada, nem o próprio nada. Valores e sentidos, nesse raciocínio, não existem, mas o “eu”, o self da filosofia anglo-americana, ou ao menos a experiência subjetiva para quem considere o “eu” metafisicamente carregado, existe. É a experiência subjetiva quem possibilita a experiência do nada, por mais paradoxal que isso possa soar. A experiencialidade, claro, não detém significado, ou sentido, mas ela ocorre. Assim, o ceticismo associado ao niilismo pode negar até mesmo a existência do mundo externo ― o que nos colocaria em condição de afirmar que o supernaturalismo (que depende em algum grau do mundo externo) não é condição necessária para o niilismo, tal como consta na enciclopédia Stanford de filosofia. Todavia, não se pode negar a existência da própria experiência subjetiva ― aliás, nenhuma doutrina pode fazer isso, pois ao fazer estará falseando a si própria no ato. Podemos concluir, dessa forma,  que o niilismo é uma doutrina cósmica, no sentido de se aplicar a tudo, mas não é uma doutrina metafísica ou ontológica, no sentido de defender que absolutamente nada existe. Não há niilismo metafísico, mas apenas ceticismo metafísico. Assim, posso ser niilista e, ainda assim, ser um investigador metafísico, ou um cientista.

Entende-se, portanto, que a dose de ceticismo no niilismo pode variar. Falar de “niilismo epistemológico”, logo, é sempre problemático, sendo melhor falar de ceticismo simpliciter. Por exemplo, há realistas, entendendo o realismo como a crença no mundo externo e na possibilidade de conhecê-lo, que são legitimamente niilistas (o niilismo ocasionado pelo cientificismo, ou supernaturalismo, é um atestado disso). Logo, o niilismo só se encerra onde há, propriamente, atribuição de propósitos ou de sentidos imanentes, não onde há dúvida ou a descrença de que haja critérios válidos para o conhecimento. É importante que se entenda isso, caso contrário falaremos de niilismo de modo impertinente, isto é, em campos de saber onde não há espaço teórico para ele.

Falando agora um pouco de autores. Historicamente, o niilismo é muito associado a dois pensadores, a saber, Schopenhauer e Nietzsche. No caso de Schopenhauer, fala-se de niilismo “pessimista”. Schopenhauer assume que o mundo, sendo ele próprio representação, e, portanto, algo subjetivo, não contém valores ou sentidos imanentes, sendo toda tentativa de valorá-lo um empreendimento ilusório. Na contramão disso, haveria um ímpeto humano inato de querer valorá-lo, de prevê-lo ou vivenciá-lo mediante certos significados, o que nos coloca em frustrações persistentes. Como consequência, a vida humana está condenada a sofrer, a desejar incessantemente uma realidade que não existe. Dentro do pensamento deste autor, tudo isso, com efeito, faz sentido. Mas o que o pessimismo teria a ver, essencialmente, com o niilismo? Estaria o niilista, necessariamente, condenado ao sofrimento e, paralelamente, ao pessimismo? Não. Assumir que ausência de sentido e felicidade são codependentes é uma petição de princípio. Em Schopenhauer isso faz sentido, mas nem todo niilista é schopenhaueriano (apesar de eu, particularmente, o ser), como também nem todo niilista considera que felicidade e sentido andam lado a lado. Assim, dependendo do conceito de felicidade que assumirmos, o niilismo pode ser, por excelência, uma doutrina da felicidade, da realização. Por exemplo, pode-se entender que são propriamente os valores, as crenças, as normas e tudo o mais que dependa de um valor circunscrito imanente o que, efetivamente, ocasiona sofrimento. Logo, o niilismo seria uma espécie de libertação dos valores, lançando o indivíduo, ou a subjetividade, a um mundo onde nada é impeditivo. Utilizando a máxima atribuída a Dostoiévski, “se Deus não existe, tudo é permitido”. De fato, é previsível que existam niilistas desse tipo no mundo, sobretudo magnatas ou pessoas aventureiras: se nada tem sentido, se a vida é um absurdo e tudo o que possa ter como seguro são as minhas experiências, então viverei segundo elas ou viverei desejando usufruir delas.

Nietzsche, em contrapartida, não é tão pessimista assim, se é que podemos chamá-lo de pessimista, dado que o sofrimento em Nietzsche é algo a ser ressignificado. Nem é ele, ao contrário do que muitos dizem, niilista (ele pode até ter sido, enquanto pessoa, pessimista e niilista, mas não a sua obra). O niilismo nietzschiano é um momentum da sua obra. Mais ainda, o niilismo nietzschiano é uma ferramenta epistêmica, ou transformadora, não uma doutrina de vida. Em Nietzsche, o niilismo, a despeito de ser um momento necessário do pensamento, é justamente o que se deve evitar. O ubermensch, ou super-homem, nietzschiano, nesse sentido, é alguém apto a superar a esvaziação dos valores com novos valores, valores mais vigorosos, mais colaborativos com a pulsão vital, mas não alguém a negar valores pura e simplesmente. Trata-se de destruir valores para propor novos. Em Nietzsche, novamente, não se trata de abandonar os sentidos, mas de transvalorá-los. Os comentaristas de Nietzsche, por vezes, designam isso como “niilismo ativo”, um niilismo superador de si mesmo, em oposição a um niilismo “passivo”, ou niilismo simplesmente. Propomos, para todos os efeitos, chamar esse tipo de niilismo de niilismo metodológico. Ele teria uma versão doutrinária correspondente no que se chama, hoje, de “niilismo político”. Isso tudo que falamos, para quem está familiarizado com a obra nietzschiana, é, certamente, trivial, mas é bastante comum a ideia de que Nietzsche é um niilista stricto sensu, por isso urge a necessidade de chamar a atenção para isso.

Seguindo uma análise histórica, poderíamos avançar até os existencialistas, onde se desenvolveu o chamado niilismo existencial, bem como o absurdismo camusiano, ou poderíamos retornar até os gregos e analisar os traços niilistas no ceticismo pirrônico. Todavia, não é isso o que propomos aqui, e nem dispomos de tempo. É incontestável que o niilismo apresenta uma rica diversidade de vertentes e autorias, mas se fôssemos fazer história da filosofia aqui acerca do termo estaríamos apenas repetindo o que já se encontra em grande volume na internet, seja em artigos de revistas, compêndios, enciclopédias ou mesmo blogs como esse. O nosso desafio, portanto, é encontrar uma definição geral, pertinente a qualquer lugar que o niilismo possa ser identificado em maior ou menor grau.

Seguindo o que propomos, se o niilismo é uma doutrina, em última análise, cósmica, isto é, direcionado a tudo o que existe, cabe então um exame metafísico dos seus traços teóricos ― para o horror dos artigos que se confundem achando que niilismo e metafísica não possuem relações essenciais. Apresentamos, então, três princípios metafísicos:

1) O niilismo possui, antes de tudo, e como já dissemos, uma metafísica da mente. Há algo que certamente existe e que não está em dúvida. Este algo é a minha própria mente, ou a minha consciência, ou a minha subjetividade, ou a minha experiência psíquica (ou a coleção destas, para quem prefira). É este algo o que possibilita a experiência de um universo desprovido de sentido, bem como, também, é este algo o que torna a minha própria existência absurda, dado que a experiencialidade, além de até hoje não possuir uma explicação natural cabível, não parece ser um fenômeno necessário no curso evolutivo do universo. Em outras palavras, eu, ou as minhas experiências, poderiam muito bem não existir e, ainda assim, o curso da realidade cósmica continuaria ― muitos niilistas, com isso, são também, como se diz em filosofia da mente, “epifenomenalistas”.

2) Paralelamente ao anteriormente exposto, temos uma metafísica cósmica: os fenômenos do universo, estejam eles em larga ou pequena escala, ocorrem sem direção ou intencionalidade. O conjunto de determinações (ou indeterminações para quem prefira) que causam os fenômenos, igualmente, não agem mediante algum sentido. O universo, assim, é uma grande realidade esgotada em si mesma, absurda, em última análise sem causa, pois, assim como tudo o que existe, nada poderia existir.

3) O niilismo possui uma ontologia que envolve uma teoria teológica: quer Deus exista, quer Deus não exista, ainda assim, a própria existência em geral, incluindo a de Deus, não possui causa, o que nos leva a afirmar, novamente, o princípio niilista de que a existência, qualquer que ela seja, é desprovida de qualquer sentido. Se Deus existe, por que ele existe? Por que, ao contrário, ele simplesmente não existe? O que separa a existência da não-existência? A existência de algo parece, assim, radicalmente incondicionado, absurdo. (Uma vez que o niilismo tenha uma ontologia não necessariamente negativa, podemos concluir que a associação necessária entre niilismo e irrealismo é impertinente).

Decorrente desses princípios metafísicos, temos, então, a ética niilista. Se nada no universo tem sentido, por que a vida, a minha vida, teria? Qual é o propósito da vida? Por que viver? Como viver? Essas questões já eram colocadas na Grécia Antiga a partir, sobretudo, da tradição filosófica inaugurada por Sócrates e Platão (antes deles, entre os pré-socráticos, a filosofia que vigorava mais era a cosmologia). As respostas dos gregos, inicialmente, eram essencialistas, ou seja, assumiam a existência de valores ou sentidos imanentes, em si, no universo. Dessa forma, para Platão, o belo, a justiça, o bem, etc., é real tão como é real, para o senso comum, um edifício em uma cidade. Todavia, gerações que se seguiram de Platão passaram a questionar isso. Novos filósofos, como Pirro, passaram a afirmar que tais coisas, mesmo que existissem, não poderiam ser conhecidas e que, portanto, o que assumimos conhecer delas pode ser falso. Pirro propõe, nesse sentido, a suspensão dos juízos, bem como a ataraxia, a saber, uma atitude de despreocupação, de retiro polêmico (no sentido de abandonar as discussões da polis) e de descondicionamento ético. Sobre esse último ponto, Diógenes de Laércio, antigo historiador da filosofia, relatou casos onde Pirro agia de forma eticamente insensata, tal como em um episódio onde Pirro negou socorrer, com flagrante indiferença, o próprio mestre que se encontrava preso em uma vala.

Para um niilista pirrônico, a ataraxia parece ser um modo de vida adotável. Assim, o niilismo, nesse viés, implicaria uma vida indiferente. Todavia, essa ética niilista não é a única possível, sendo também possível um niilista filósofo, ou cientista, interessado e afetado pelas questões, para além dos significados atribuídos, que o universo coloca.

Uma outra alternativa, considerando o caso da falta de sentido ser aterradora para alguém, seria o próprio suicídio. As páginas niilistas no facebook, por exemplo, tematizam o suicídio frequentemente, como se o suicídio fosse a única opção “lógica” para o suposto sofrimento necessário (obrigatório) ocasionado pelo niilismo. Mas vimos, no entanto, que o sofrimento, ou mesmo o pessimismo, sequer é um elemento teórico indissociável da doutrina que aqui estamos discutindo. Podemos ir mais longe e questionar de vez esse “suicidismo” veiculado nos espaços niilistas: o suicídio parece uma atitude de significação, isto é, uma atitude perante a vida, uma atitude de retiro da indiferença e, fundamentalmente, um ato de atribuição de sentido ― por paradoxal que seja. Quem encerra a sua vida viu, ou sentiu, sentido na morte ― há sempre uma motivação prenhe de significados. O niilista, nesse caso, não é um suicida, ele é apenas indiferente, inclusive acerca da própria morte.

Qual ética niilista, então, resta? Podemos dizer, com segurança, assumindo o que trabalhamos até aqui: nenhuma. A ética niilista é o próprio niilismo ético, a ideia de que não há um como viver, mas apenas o viver, seja de qual forma for ― tanto faz. Encontrar uma ética niilista seria, assim, um empreendimento já fora de seu território teórico. Mas será mesmo?

Acreditamos que não. E, por isso, podemos já adiantar que niilismo não é, necessariamente, niilismo ético. Há uma ética possível. Uma dessas éticas, talvez a mais bem desenvolvida, se encontra na obra O Único e a Sua Propriedade de Max Stirner, uma obra prima do assunto, onde o autor, um dos jovens hegelianos do século XIX, reage contra o idealismo, os “fantasmas” segundo ele, que habitava a Alemanha de sua época.

Para Stirner, como bem assinalamos acima no primeiro princípio metafísico, a subjetividade pura, a subjetividade no que ela tem de irredutível, é a única base “segura”, aquilo sobre o qual não podemos duvidar, bem como aquilo que não está aberto à negações de ordem ética. Pode-se negar sua identidade histórica, sua identidade cultural, política, etc., mas não se pode negar a identidade de um alguém (da subjetividade, enfim). Essa subjetividade é fundante de tudo. Por isso, é insensato associar o niilismo ao anti-fundacionismo, a menos que incorramos em um ceticismo descabido teoricamente (para o niilismo), pois, para o niilista, a subjetividade individual é irredutível, ela é um fato bruto do universo.

A subjetividade para Stirner é uma subjetividade “pura”, isto é, uma subjetividade destituída de suas contingências históricas, sociais ou quaisquer contingências que possamos considerar (é controverso se o substrato físico dessa subjetividade não seja, também, para ele, contingente). O “eu”, ou o que quer que o fenômeno da experiência subjetiva seja, é tudo o que o niilista, ou o Único, como diria Stirner, possui. É um “nada”, pois é pura subjetividade, mas também é aquilo que pode criar algo, mesmo ficcional. Diz Stirner no prefácio do Único: “a minha causa é a causa de nada!”. Isso significa, parafraseando o seu raciocínio, “fundei a minha a causa sobre nada, nada além de mim mesmo, a única realidade que importa” (vejam, neste blog, o texto Introdução ao Prefácio do Único). Como resultado desse princípio, Stirner autoriza, rigorosamente, qualquer atitude que atenda a subjetividade do Único. Se, nesse sentido, dentro da própria experiência subjetiva, há certos desejos, então esses desejos devem ser atendidos tão quanto possível. O impedimento ético, para Stirner, é um fantasma normativo, estranho, que assombra ou condiciona o pessoal. O niilista por excelência, na nessa lógica, é aquele capaz de agir mesmo em um mar vazio de sentidos (a ataraxia, para Stirner, seria anti-niilista), contanto que quem nade nesse mar esteja apto para reconhecer a irredutibilidade de suas próprias experiências, anseios, desejos, etc. Faz-se o que bem entender e tudo o mais que tente impedir é estranho, assombroso ou, simplesmente, carente de sentido. O niilismo stirneriano o levou a condenar não apenas o iluminismo, a burguesia e o liberalismo, mas também o socialismo. Nada, em sua obra, passa ileso de sua iconoclastia egoísta.

Tendo tudo isso exposto, podemos, finalmente, lançar uma mensagem final. Vivemos, certamente, em tempos onde uma parte significativa dos valores são questionados, ou mesmo destruídos. São tempos, podemos dizer, que tendem ao niilismo. Diria Nietzsche, todavia, são tempos que tendem ao niilismo ruim, ao niilismo hiperracionalista, hipermoderno, paralisante, que lança ao patológico, ou ao que é desviante, tudo aquilo que seja impedido pelo tribunal de uma razão implacável. Essa secularidade doutrinária dos nossos tempos teria como desfecho a paralisia total, a negação dos instintos e, por fim, o sofrimento gratuito, tudo em nome da conveniência de uma racionalidade sedenta pela normalização lógica da sociedade. Com consequência, viveríamos, na prática, segundo uma ética essencializada, dado que não haveria possibilidade de contornar o que a racionalidade ética estabeleceu. Por fim, o niilismo hipermoderno se transfiguraria em seu oposto.







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