Real Time Web Analytics Violência Semântica: Julho 2010

terça-feira, 27 de julho de 2010

Aforismo



Um pensamento só pode ser sincero e verdadeiro se - e somente se - tiver, entre os elementos do plano de fundo, a Morte.

- Benny

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Sociologia do Respeito (2)


Não uma continuação do outro texto Sociologia do Respeito, mas uma construção propositiva nascida das cinzas ideológicas, este texto virá abordar com um teor mais realista e profundo uma das convenções morais mais macabras da história do ser humano, aquela que busca legitimar absurdamente a resignação perpétua, isto é, o respeito.

Nos quadrinhos (sem querer fazer uma analogia clichê, mas já fazendo) do Batman existe um personagem que foi e continua sendo objeto de contemplação da filosofia, no que compete aos adeptos do esvaziamento, da niilificação. Este é o Coringa, figura extremamente odiada na história do quadrinho. Símbolo de inúmeros adjetivos negativos, segundo certa hegemonia presente na história, tais como: imoral, vândalo, delinqüente, terrorista, malvado, destruidor, violento, demoníaco - dentre outros - ainda sim é contemplado. Ora, é contemplado simplesmente por ser excêntrico? Às vezes, equivocadamente. O coringa não é objeto elegante de hermenêutica filosófica, mas é uma personificação direta do sublevador moral, do transvalorizador, do anti-culturalizador. É nele que se encontra a contestação radical da justiça, das verdades. O Batman representando a justiça hegemônica, o Coringa representando o esvaziamento, a destruição de tudo o que pode não ser verdadeiro.

Na filosofia, precisamente em Sócrates, as convenções morais ganharam deificação, se tornaram o valor absoluto da intenção moral (Pierre Hadot, O Que é A Filosofia Antiga). Nesta época agônica, o valor absoluto do Bem - que em Sócrates não é nada além que as leis de atenas - não era suficiente para o fantoche da filosofia tendenciosa, a filosofia de platão¹, na era clássica; era preciso, ainda, ter a intenção de fazer o bem: tamanha era a preocupação em preservar o ócio (a academia) dos filósofos! A idéia de justiça na academia de Platão, era muito bem definida, por mais que se usasse o verniz suavezante do anti-dogmatismo, ou seja, a maiêutica, o "só sei que nada sei" de Sócrates, os diálogos e etc. Uma microfísica do poder (Michel Foucault, Microfísica do Poder) poderia ser usada em análise na Atenas filosófica - se essa era ou não a intenção de Platão não vem ao caso agora - afinal, atenas precisava de controle social, por mais que isso seja anacronismo de se dizer, ela precisava preservar a ordem estabelecida.

Batman incorporou essa intenção de fazer o Bem da era clássica, enquanto o Coringa encarnou o homem meta-ético (Ernani Chaves, O Silêncio da Tragédia Leituras de Walter Benjamin), o homem do além do bem e do mal de Nietzsche, "o Único e a sua causa" (Max Stirner, O Único e a Sua Propriedade). O Coringa era indiferente à tudo, até indiferente à dor. Nada estava além da tua causa. Negava todas as convenções possíveis, deixando apenas sua ânsia de destruir tudo o que havia sido criado até então. Ele era o niilista em sua pragmática, romantizado pelo seu sorriso imperativo e suas cores cafonas sem sentido; era o acaso, sem nenhuma consequência histórica, era o absurdo, era o pesadelo e falsificação do sistema espiritual de Hegel. É por isso e tantas outras que o Coringa é um personagem tão querido na filosofia, seja na sua existência pragmática, seja no que representa.

As convenções morais e sua imposição para forçar todos indiretamente em ter a intenção de aceitá-las, tem uma função central para os indivíduos do poder: evitar que surja das cinzas um Coringa real. É no Coringa que se encontra o mais terrível e temido pesadelo destes indivíduos. Nele é presente a possibilidade prática de arruinar todos os pilares que sustentam a hierarquia econômica. A preocupação destes é tal que não cessam um segundo de trabalhar para que não surja um destruidor vestido de palhaço - afinal a possibilidade física de um coringa é mais provável que a de um Batman "planador". Tudo o que há de imprevisível está no Coringa, nele não se encontra sistemas fechados, dogmas ou doutrinas; não se encontram mediações e limites morais; é impossível qualquer aplicação psicanalítica. O que os homens do poder poderiam fazer para se defender? Não há religião, crença, cultura ou campanha conscientizadora que possa prever seus passos, nem mesmo é possível prever suas falhas. O que se faz quando, desprovido de qualquer orientação moral, alguém vestido de cabo-à-rabo de dinamites entra em um banco? É uma guerra sem aviso prévio, sem diálogo, sem previsão!

Apesar de tudo, Coringas já surgiram na história. Um deles, não se pode negar, foi Ravachol. Tendo visto sua família morrer na miséria, não cessou de destruir e matar² até que alguém conseguiu pará-lo. Até então, ele fez um tremendo estrago que o fez famoso e consolou sua angústia. Foi na contemplação sincera do ódio que Ravachol encontrou seu anti-daimon, seu interior niilificado, seu coringa. Tal contemplação vale lembrar que é proibida pelas convenções morais de grande parte da história. Pois, é no ódio que melhor se encontra a contingência insurreicionária, a imprevisibilidade e determinação do ato. Pode-se muito bem dizer que em uma briga, antes de começá-la, a vitória já está decidida em quem agregou melhor o ódio para projetá-lo como fúria. O ódio subverte o medo, a consciência moral e, portanto, o respeito. Tal ódio não nos parece presente no Coringa, mas ele antecede o mesmo - o Coringa, à partir de, provavelmente, um passado cruel, eclode o ódio e, consequentemente, sintetiza uma contingência inimaginável, a-histórica. Tal passado é um mistério no quadrinho: talvez esta seria a intenção do autor para expressar com mais intensidade sua espontaneidade.

Criada em um laboratório moral, a palavra respeito não me engana: ela é um fator primordial para controle social. Do que seria, por exemplo, da família se essa palavra não fosse tão minuciosamente valorizada? Esta palavra, dentre outras de uma consciência moral imperativa, é de suma importância para a perpetuação de qualquer submissão. Nela está presente todo um passado histórico de resignação humana, de ajoelhamento em massa para ideais, de super-valorização generalizada de causas alheias - Deus, a pátria, o chefe, e etc. Um pedestal enjaulado em ouro guarda essa palavra de toda e qualquer transgressão. O "políticamente correto", a ética e a consciência moral têm a chave para entrar nesta jaula e se contaminar da inércia que implica valorizar tal palavra. Mas, então, queremos dizer que deve-se suprimí-la por completo? Não. O respeito ainda é uma convenção social viável. Contudo, deve-se refletir onde ela merece ser valorizada mas, ainda sim, NUNCA deve ser super-valorizada, nunca deve ser sacralizada; a cada situação ela deve ter sua valorização mediada, em acordo com a verdade. No que tange à ideais, a palavra respeito deve ser mediada com a maior atenção possível: é no mundo das idéias, nas causas estranhas que ela deve ser menos valorizada. Na caso de negligência valorativa neste caso, traimos à nós mesmos pacificando-nos frente à absurdos tendenciosos, com - quase sempre necessariamente - fins que garantem a prática egoista de alguns poucos.

Deus e a pátria, por exemplo, negligenciam a atenção à gestão do mundo de seus súditos à todo o momento, mas NUNCA negligenciam o aperfeiçoamento dos instrumentos de convencimento que super-valorizam o respeito. Antes de servir as suas causas, eles se preocupam com a própria pele. Antes de retribuir a servidão de seus escravos eles precisam garantir e perpetuar essa estratificação entre senhor e súdito. É justamente nisto que a palavra respeito tem sua maior importância, sua funcionalidade em essência: proteger a hierarquia e a ordem estabelecida. Com a super-valorização do respeito, isto é, da submissão disfarçada, descarta-se a demasiada preocupação com as forças coercitivas. No caso de Deus, descarta-se a necessidade de um exército fortemente armado no Vaticano, por exemplo; no caso da pátria descarta a necessidade frequente de tropas de choque; na família descarta-se a vergasta sempre no cinto do pai; nos súditos, o mais curioso, descarta-se quase sempre a necessidade de andarem armados. O que mais impressiona, todavia, é que o respeito não costuma ser presente entre os que exigem respeito. Afinal, o próprio ato, por exemplo, de respeitar religiões pode ser falsificado uma vez que respeitar religiões é uma idéia anti-religiosa. Aqueles que justamente trabalham incessantemente para garantir a imunidade da super-valorização da palavra não a fazem em prática. O caso clássico é a de que religiões não se respeitam reciprocamente. Guerras e inúmeras mortes foram causadas por isto. É neste sentido que podemos envidenciar o quanto que essa parte da consciência moral é tão laboratorial e tendenciosa. Ela é imposta e ao mesmo tempo ignorada por alguns para prejudicação de muitos.

A mediação de valorização do respeito, portanto, é fundamental para o compromisso com a verdade. Respeitar, porquê? É preciso ter esclarecido que muitas das desgraças que aconteceram e acontecem no mundo continuam ocorrendo em função da super-valorização de tal palavra. Negá-la, muitas vezes, será o estopim principal para iniciar o caminho da liberdade, da superação. É conveniente considerarmos por agora que na maioria dos casos respeitar algo que não lhe respeita é medíocre e redenção. Respeitar, portanto, culturas, ideais e doutrinas que não respeitam umas as outras, que não respeitam a autonomia espiritual de um indivíduo (batizado quando bebê por exemplo e a obrigação do serviço militar), que são uma entrave para a evolução social e da ciência, que perpetuam a hierarquia social e tudo aquilo que faz do mundo uma contradição escrupulosa será, necessariamente, a redenção, o "vender a alma ao diabo", a inércia, o descompromisso para com a verdade. Para não cair nisto, é necessário o exame radical e niilificador de nossos próprios valores, do que julgamos como justiça, como o Bem. A moral não passa de meras convenções absolutamente inteligíveis para a verdade do cosmo - ela é passível de transvalorização ou mesmo de sua destruição. Não haverá, jamais, um ser humano em sua totalidade virtuosa enquanto tais paradigmas não forem contestados à partir do Nada - não no sentido da vacuidade mas no sentido do Nada Criador³ - com a face da a-historicidade, da sinceridade com a própria vida e do Eu. Pois, sem existir escapatória, o que sempre vence no final é aquele que já está a caminho da totalidade, que já superou o Coringa, que seus atos - altamente imprevisíveis - pode mudar tudo, que sublevou a consciência moral, que subverteu o respeito.
__________________________________

¹
Tal afirmação é uma posição pessoal frente à filosofia platônica pensando-a à partir de uma análise anacrônica.
² Ravachol não foi um serial killer, mas foi um anarquista ilegalista do final do século XIX. Uma de suas aventuras está a de que, durante a noite, entrou na casa de um famoso e rico burguês e lhe desferiu uma machada na cara enquanto dormia, matando-o.

³
A Minha Causa é a Causa do Nada, O Único e a Sua Propriedade, Max Stirner.

- Benny



sexta-feira, 16 de julho de 2010

A Validade da Tarifa-Zero


Enxergar a importância primordial de pensar o transporte em uma cidade não deveria ser aventura de poucos. No que condiz com a construção de uma cidade melhor o transporte deve estar entre as prioridades imperativas de articulação e ação. Se concebermos, como trajeto ideal de evolução, a procura incessante da liberdade - isto é, pensar em como estarmos sempre mais próximos da emancipação real e absoluta - a mobilidade, o livre ir-e-vir, então, deverá protagonizar, juntamente com outros problemas, os meios para a busca deste fim. Liberdade, portanto, mobilidade.

Tal mobilidade, em sua representação urbana, será indiscutivelmente o transporte ou, mais objetivamente, os meios de transporte. É justamente o debate da gestão destes meios (transporte) que têm sido tarefa de poucos - o que não deveria acontecer, afinal na cidade não moram poucos. A hierarquia de prioridades do debate urbano não corrobora com a realidade; é perfeitamente válido entendermos o transporte como um bem essencial tão importante como a moradia, a educação e a saúde. Se um destes bens está negligenciado a cidade então está em crise. Todavia, tal crise costuma frequentemente ser exaurida das percepções pela problematização exagerada de assuntos "luxuosos" dos indivíduos do poder. Os problemas da cidade - por exemplo - não estão na falta de pistas que tais indivíduos julgam ser a causa de engarrafamentos; mas sim, obviamente, na raiz do problema que é propositalmente ignorada (ausência de transporte coletivo eficiente); pois, a resolução real e sincera do problema resultaria na enorme perda de riquezas de alguns poucos miseráveis espíritos de porco.

Solucionar os problemas da cidade - não só o transporte, mas todo e qualquer problema no mundo - é caminhar sinceramente, sem ignorar a realidade por interesses absolutamente pessoais, em direção a essência do problema, evitando de uma vez por todas medidas paliativas e inúteis. Portanto, acabar, ou ao menos diminuir drasticamente com as mortes no trânsito, a falta de estacionamentos; os engarrafamentos; a poluição (sonora, ambiental e visual); os gastos colossais com combustíveis; os gastos infantis com novas pistas; e muitas outras coisas será, necessariamente, sem possibilidade de paliativos, o transporte coletivo gratuito e de maior qualidade possível.

Entender, então, estes problemas, é reconhecer a tragédia que é uma sociedade que deseja carros a todo o momento. Este desejo está, inegavelmente, relacionado à necessidade mórbida de suprir a falta de mobilidade com carros - e muitos mais carros! Além disso, cobrar tarifas por um bem essencial é um absurdo e imoral - apesar de muitas vezes parecer o contrário por conta de tabús (para muitos é um absurdo um transporte coletivo  gratuito). Enxergar esta realidade sem tarifas tem parecido difícil mas não deveria, afinal paradigmas existem para serem destruídos. Nesta lógica, o transporte deve abandonar as mãos de empresas privadas e passar a pertencer a alguma entidade gestora com vínculo popular, seja ela o Estado (paliativo momentâneo) ou entidades populares de gestão propriamente ditas. Assim, teremos o transporte mais próximo das pessoas e ele deixaria de ser fonte de lucro. Por que razão temos de pagar algo que é tão essencial quanto a saúde e educação? Não há possibilidade ética de algumas poucas e lamentáveis pessoas usar das necessidades intrínsecas de uma população para proveito exclusivo: o transporte enquanto mercadoria não tem procedência ética e muito menos lógica. O Movimento Passe-Livre formula tal raciocínio e o conclui em proposta prática para a sociedade. Proposta esta que será aplicada somente quando tivermos claramente em nossas reflexões o absurdo que é o transporte coletivo nas mãos de empresas privadas. Trata-se de tornar o transporte público de fato, de concretizar esta possibilidade, de reconhecer o enorme valor do direito à cidade, do direito de ir e vir. Liberdade, mobilidade, portanto, tarifa-zero.


- Benny

segunda-feira, 12 de julho de 2010

O Refúgio


Certa vez, em uma conversa desnecessária, apontaram-me, julgando como fraqueza, meu uso do álcool. Como sempre mais um julgamento vazio e de única intenção: deturpar quem sou. Pode-se até dizer que é feio, às vezes inconveniente. Contudo, o que não aceitarei em todo caso é aplicar sentido de imoralidade. Tomo a liberdade e certeza absoluta de dizer que tal refúgio - se é que podemos chamá-lo como tal - não é sinal algum de um tipo de inferioridade de espírito; o seria salvo os casos de devoção frequente e destrutiva para com a droga.

Já faz algum tempo que pessoas se afastaram de mim por conta dela. Seja porque perco a feição de homem civilizado, seja porque passo vergonha para outros. Todavia, o fato de às vezes o álcool ser usado para a socialização de um meio acontece - no que tange se assemelhar aos do grupo. Em meu caso, não há como ser menos arrogante: será para suportar a tagarelice vã e negar por algumas horas meu desprezo pelos incapazes de autenticidade e cérebro. Percebendo isto, bebo para me forçar a ter uma vida social possivelmente válida, para ter companhia, mesmo quando em minha infeliz lucidez não poderia aguentar tais pessoas.

Falsidade? Sim, mas quem seria desprovido totalmente de falsidades? Acredito que ninguém poderia esperar que um jovem de vinte anos se isolasse totalmente em um cafofo de estudo e contemplação da verdade, isto seria negar a existência dos desejos instintivos humanos. Se bebo, o faço para aliviar o sofrimento do existir, o faço para ter companhia. É relevante tomar o fato de que a grande maioria das pessoas que não bebem, não fumam e gostam - sentem prazer - de deturpar e criticar aqueles que o fazem, costumam serem dotadas de enorme beleza. São justamente aquelas que estão embebedadas de companhias e da sensação de serem desejadas.

Se formos falar que o uso do álcool é um refúgio, fico mais entusiasmado. Pois se embriagar é justamente isto, e não poderia ser nada além que um refúgio. Haverá pessoas para dizerem que a droga é o pior refúgio. Eu digo que não: antes um refúgio literalmente substancial que a submissão do Eu. Ora, antes um refúgio deste caráter que a decadência de espírito. Como poderia eu, subverter tudo o que sou e que criei para mim para me submeter as qualidades depreciativas dos incapazes de cérebro? Se o bebo, o faço para me tornar por algum momento incapaz como os incapazes e, assim, posso fingir tendo sensações e breves alegrias como se fosse tal. Portanto, não posso deixar de ser quem sou por definitivo e eis aí a utilidade do álcool. Mereço, mais que muitos, ter o prazer de se sentir amigo de alguém, de ter companhia. Se isso não acontece espontaneamente, ou por maquinação ou inveja de outros - sim, aceitaria muitos incapazes, desde que conscientes disto - uso da falsidade, de tal refúgio mórbido, doentio, para ter alguns poucos momentos de ilusória alegria.

Se existe alguém que acha isto uma idiotice que o comprove com proposições ao alcance. Pois, sendo mero acaso, ou não, estarei sóbrio e demasiadamente lúcido quando ler ou escutar. E que não transpareça inveja nas incitações.
.......

Os escritos que coloco aqui, fazendo um diagnóstico, percebi que estão tomando cada vez mais um caráter de desabafo. O porque eu não sei ao certo ainda, mas se continuar assim acho melhor parar de postar coisas, afinal estou desabafando apenas para mim mesmo.

- Benny

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Sobre o Relacionamento Cotidiano


Haverá, evidentemente, diversos momentos em que o esbarrar entre rostos conhecidos do dia-a-dia será inevitável. No que tange o cumprimento, a cordialidade branda e o sorriso não há o que problematizar. É verdade que - exceto se considerarmos como instrumento de civilidade - tais cumprimentos são triviais e quase uma perda de tempo (se não fosse este ato tão breve). Todavia, o que vale a pena agora problematizar é a preocupante - ou não - frequentização de tais breves cumprimentos em detrimento de relações cotidianas, que deveriam ser, no mínimo, suavemente íntimas. Fenômeno este que costuma incessantemente acontecer aos portadores da sabedoria prática ou, respeitando a proposição dos antigos, aos portadores do desejo de alcançar a sabedoria.

Isto, claro, guia sorrateiramente este portador ao isolamento. Sem perceber - muitas vezes - é levado à uma solidão que chega a render o suicídio da vida social. O principal sintoma para diagnóstico disto é a arrogância por parte dos portadores da sabedoria prática, isto é - agora mudando o termo - arrogância por parte dos delinquentes da cultura vigente. Delinquência por conta do caráter contracultural do mesmo, da negação da adaptação social e cultural. Estes, em sua vida social, não raramente passam a odiar aqueles a que se submeteram a cultura, pois é inevitável a transparência conflituante desta ruptura. No cotidiano isto se traduz na redução, e até algumas vezes, na erradicação absoluta de amizades cordiais.

Esta solidão, como já foi dito muitas vezes pelo pessimismo de Schopenhauer, pode ser o principal alicerce para a intensificação do pensar, da sabedoria prática. De fato, o isolamento pode ser o principal instrumento para a meditação. Entretanto, seria ignorância boba, desconsiderar o comportamento doentio de muitos homens da história que buscaram este isolamento. Diziam-se, muitas vezes, serem felizes quando, na verdade - quando não se confessavam e exaltavam a infelicidade - eram, talvez, os seres mais infelizes do mundo na época destes. Não importava qual era a quantidade e qualidade de seus exercícios do saber, sempre demonstraram sintomas de pessoas extremamente infelizes.

Agora podemos chegar à uma conclusão: quem eram (são), então, os felizes? Com toda a certeza, levando em conta os fatos, eram e são felizes aqueles que não foram levados ao isolamento. São felizes, aqueles e aquelas que em seus cotidianos não têm uma vida social resumida aos breves cumprimentos. São felizes aqueles que por receberem intimidade são reconhecidos, são elogiados, são reclamados. Pois bem, e como alcançar a felicidade por esta via? Como ser reconhecido se, por mais que se tente, ainda somos tão contraculturais e, portanto, delinquentes, marginais da vida social? Como ser reclamado, quando temos um muro acústico - a sabedoria - que nos separa dos restos do humanos?

Abdicais de tua delinquência mano, largue todo esse lenga-lenga do pensar e volte seus olhos para o maquiavelismo dos ignorantes, dos que são aplaudidos e reconhecidos. Se submeta a ser ridicularizado por conversas vis. Aceite, com carinho, a incapacidade e má vontade de teu semelhante de usar o interior de suas caixas cranianas. Curve-se diante das paixões e vícios e não se esqueça de fazer de palhaço os que eram antes como você, sábios. Deixe de pensar na morte e projetar futuros, passe a pensar agora em como intensificar suas relações cotidianas, pois são elas que lhe reservarão reconhecimento, mesmo se não existir nada para ser reconhecido em ti. Esta é a lei do espetáculo, afinal a sabedoria são para durões e não para você, mero jovem contemporâneo de um sistema totalitário mercantil, como diziam os situacionistas. À partir de agora tua causa não é mais fundamentada no Nada, mas na causa alheia.

Vide a solidão que dilacera, minuciosamente, a ânsia de esperança.


- Benny

quinta-feira, 1 de julho de 2010

O Anarquista de Émile Armand


Este ensaio foi escrito em 1911 e publicado posteriormente na Enciclopédia Anarquista de Sébastien Faure. Se trata de um "manual", de um texto extremamente dogmático. Entretanto, sabendo disto, pode-se usar este texto com fins não-ideológicos. Afinal, o que vale é a malícia: mesmo nos jardins de rosas mais espinhosas é possível, ainda, retirar os espinhos para enaltecer o que restou de mais belo.

O que segue se trata apenas de um fragmento do texto que é muito mais longo, tratando posteriormente do anarquista individualista (termo que nunca concordei para designar o pensamento stirneriano).

Lá vai:

O anarquista é aquele que nega a autoridade e rejeita seu corolário econômico: a exploração. E isso em todas as áreas de atividade humana. O anarquista deseja viver sem deuses nem mestres; sem patrões nem diretores; alegais, sem leis e preconceitos; amorais, sem obrigações e moralidades coletivas. Ele deseja viver em liberdade, viver sua concepção pessoal de vida. Em seu interior, ele é sempre um a-social, um refratário, um excluído, alguém que está à margem, à parte, um inadaptado. É por obrigação que vive em companhia daqueles cujos hábitos repugnam seu temperamento, é como um estranho no ninho. Ele só se submete aquelas condições indispensáveis — e sempre com certo pesar — para não arriscar ou sacrificar tola e desnecessariamente sua vida, uma vez que as considera como armas de defesa pessoal na luta pela existência. O anarquista deseja viver sua vida, o tanto quanto possível, moral, intelectual e economicamente independente do resto mundo, sem preocupação com explorados e exploradores; sem a intenção de dominar ou explorar os outros, mas pronto a reagir por quaisquer meios àqueles que venham a intervir em sua vida ou a proibi-lo de expressar sua opinião através da pena ou da fala.

O anarquista é o inimigo do Estado e de todas as instituições que mantêm ou perpetuam a submissão do indivíduo. Não há possibilidade de reconciliação entre o anarquista e qualquer forma de sociedade baseada na autoridade, seja ela aristocrática ou democrática. Não há área de concordância entre o anarquista e um ambiente dirigido pelas decisões de uma maioria ou pela voz de uma elite. O anarquista luta contra aquilo que é ensinado pelo Estado e referendado pela Igreja. Ele é o adversário dos monopólios e privilégios, tendo eles natureza intelectual, moral ou econômica. Em suma, ele é o adversário irreconciliável de todos os regimes, de todos os sistemas sociais, de tudo o que implique a dominação de um homem ou de um grupo sobre o indivíduo, da exploração de um indivíduo por outro ou pelo grupo.

O trabalho do anarquista, acima de tudo, é uma crítica. O anarquista semeia a revolta contra aqueles restringem a livre expressão individual. Ele livra as mentes das idéias preconcebidas, liberta aqueles cujas mentalidades estão aprisionadas pelo medo e auxilia aqueles que já se emanciparam das convenções sociais; o anarquista incentiva aquele que deseja se rebelar junto a ele contra o determinismo do meio social, que deseja afirmar sua individualidade, esculpir sua estátua interior, ser o tanto quanto possível independente do ambiente moral, intelectual e econômico. Ele pressionará o ignorante a se informar, o apático a reagir, o fraco a se fortalecer, o submisso a se levantar. Ele pressiona os mal dotados a tirar de si todos os recursos possíveis e a não depender dos outros.

Um abismo separa o anarquismo do socialismo em todos os seus aspectos, incluindo o sindicalismo.

O anarquista coloca o ato individual em primeiro lugar no seu conceito de vida. Por isso ele é denominado anarquista individualista.

Ele não pensa que os males de que sofre a humanidade advêm exclusivamente do capitalismo ou da propriedade privada. Ele pensa que se devem especialmente à natureza falha da mentalidade humana como um todo. Só existem mestres porque há escravos, só existem deuses porque há fiéis. O anarquista individualista não tem interesse numa revolução violenta que tem como objetivo a transformação do modo de distribuição de bens para um sistema comunista ou coletivista que não leve a uma mudança na mentalidade geral e a uma emancipação do indivíduo. Sob o comunismo, ele será subordinado à boa vontade do Meio: permanecerá tão pobre e miserável quanto agora. Em vez de estar sob o jugo de uma pequena minoria capitalista, ele será dominado pelo coletivo econômico. Nada será exclusivamente seu. Ele será um produtor ou um consumidor, nunca um indivíduo autônomo.

Émile Armand (1872-1962) foi um anarquista individualista francês. Fundou, junto com outros individualistas, a Ligue Antimilitariste e editou o jornal L'En-Dehors por 17 anos.


- Benny