Real Time Web Analytics Violência Semântica: Pode-se ser anticapitalista e comprar o que bem quiser (Parte 1)

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Pode-se ser anticapitalista e comprar o que bem quiser (Parte 1)



Pode-se ser anticapitalista e comprar o que bem quiser. Foi por conta de um raciocínio habitual falso que isso se tornou uma contradição.

O capitalismo subsiste pelo braço do trabalhador, que constitui sua base real e sólida, ou seja, sua "força de produção". Já o sistema como tal é, muito antes, um conjunto de convenções abstratas, filtros de créditos, juros, acordos de papel, hierarquias jurídicas estabelecidas, ou seja, elementos virtuais ou hipóstases que subjugam forças materiais ao seu favor. O mesmo se passa com a mercadoria, que longe de constituir a essência  da estrutura de produção, é apenas o epifenômeno da mesma. Sendo assim, em campo concreto, tudo o que seria proveniente do capitalismo é, na verdade, proveniente da esfera real de produção, isto é, do próprio operário. Ao trabalhador tudo pertence: quem produziu a mercadoria tem, pela lógica natural do mundo, todo o direito sobre ela. Ao burguês parece não bastar explorar a mão-de-obra e ter um sistema que a ele beneficia, ele ainda quer alienar a realização do trabalho de seu empregado. De fato, ele o aliena, mas o aliena convencionalmente: ou seja, segundo determinações de ordem não reais, mas abstratas, como as convenções jurídicas sobre a propriedade privada. 

Sendo assim, não importa qual "superestrutura", modo jurídico ou ideologia domine: o produto fabricado é sempre resultante da força do trabalhador e, portanto, a ele de modo algum poderia escapar. Ao trabalhador tudo pertence. Alguém da esquerda pode até dizer que tal mercadoria é resultante de exploração, mas ainda assim ela continua sendo a realização material da força de produção que é a real dona do objeto. Apenas desvirtuando a realidade da produção com convenções abstratas que se torna possível alienar o artefato do artesão. 

Haverá quem possa levantar a seguinte dicotomia: a ideia versus a realização da mercadoria. Pois bem, se por acaso se escolher a primazia da ideia, então a pessoa é, no sentido rigoroso da palavra, um idealista (um idealista no sentido mais pejorativo possível, pois subjuga a realidade concreta). A quem escolhe a segunda opção será, portanto, o realista, isto é, aquele que toma a esfera material e concreta como o sustentáculo do mundo econômico (a economia real). Seja como for, não se trata de dar primazia nem para um nem para outro. Ideia e realização, projeto e produção, sejam quais forem as nomenclaturas, se tratam de duas esferas igualmente importantes e, portanto, na menos pior das hipóteses, de primazia equacionada. Por fim, e a isso devo os raciocínios de Max Stirner, o capitalista, sobretudo o liberal, nada tem de "encaro a natureza do mundo", pois na verdade ele é, em essência, um enunciador, ufanizador e protocolador de normas abstratas, enfim, um idealista! Ele, ingenuamente, se esquece que uma ideia sem sua realização, a força de produção, nunca deixará de ser uma ideia. O capitalismo subsiste, é produto, não constitui a real estrutura que suporta a realidade social .  

Então não vamos falar de hipocrisia quando um ativista, que é trabalhador, utiliza os produtos que no final das contas ele mesmo, enquanto real classe social, produziu. Afirmar tal coisa é ser leviano. Ele pode comprar o que bem quiser sem nenhuma contradição em vista. Em boa verdade, a hipocrisia se manifesta, antes, pelo próprio burguês, que pensa que a sua mercadoria surgiu no mundo como um passe de mágica! [ou de créditos]. 

- Benny

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