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Nosso cérebro muda, mas nossa existência persiste. Por quê? (parte 1)



Após uma certa quantidade de anos, todas as moléculas do nosso cérebro são trocadas, isto é, nosso sistema nervoso central é renovado materialmente de tempos em tempos por meio de mecanismos de síntese e reciclagem molecular. Podemos dizer, inclusive, que não só as moléculas são renovadas, mas também grande parte das configurações espaciais que as mesmas apresentam nos meios intracelulares se reconfiguram. Indo mais longe, podemos dizer, num nível mais alto de organização funcional, que o tecido neuronal, com suas ligações dendríticas, envoltórios mielínicos e assim por diante, alteram-se ou sofrem degeneração - sabemos que a partir dos 25 anos tem início a degeneração neural. Contudo, a despeito de todas as alterações e degenerações, persistimos sentindo que continuamos a ser a mesma pessoa. Por quê? Como isso é possível?

Muito antes do advento da neurobiologia celular, filósofos do século XVII já discutiam problemas relacionados. No caso, o problema apresentava-se no plano metafísico: por que continuamos a ser a mesma pessoa - ou entidade mental se preferirem - ao longo do tempo? Tal era o icônico problema da identidade pessoal. Não se tratava da identidade pessoal como é entendida ordinariamente hoje, a saber: identidade geográfica, filogenética, social ou cultural. Para filósofos do século XVII como John Locke, falar de identidade possuía um sentido muito mais forte, tal como a identidade numérica proposta por Leibniz. Grosso modo, Leibniz definia a identidade como uma única e mesma coisa. Essa definição diverge, portanto, da identidade qualitativa. Nesse caso, algo pode ser qualitativamente idêntico a outra coisa sem, no entanto, ser numericamente idêntico. Por exemplo, tenho em minha frente um exemplar de Visão a Partir de Lugar Nenhum de Thomas Nagel. Esse exemplar que tenho é qualitativamente idêntico aos demais exemplares vendidos (considerando que não sofreram deteriorações ou defeitos de fabricação), porém não podemos dizer que são numericamente idênticos. Coisa semelhante, porém decisivamente complicada, ocorre com nós numa perspectiva temporal: não somos qualitativamente a mesma pessoa de tempos atrás, mas somos, contudo, ou aparentemente, numericamente a mesma pessoa. 

Em uma primeira reflexão, a identidade numérica parece não suscitar problemas. Logo, se não pensarmos com cuidado, chegaremos à conclusão de que o fato de sermos numericamente a mesma pessoa de ontem é um truísmo (uma verdade trivial). Contudo, se examinarmos mais de perto o problema, veremos que há paradoxos que perpassaram séculos sem solução. Ainda hoje, o problema da identidade pessoal ao longo do tempo move uma densa indústria acadêmica, onde diferentes filósofos apresentam teses a respeito do assunto. 

Para sermos capazes de compreender a problemática identitária que foge ao truísmo, precisamos recorrer a exemplos. Vejamos um deles:

Sabemos que os hemisférios cerebrais possuem potencial autonomia funcional. Em outras palavras, se seccionarmos o cérebro em dois hemisférios, ambos continuarão funcionando; contanto, claro, que eles sejam alocados em ambiente e nutrição específica (por exemplo, em uma solução salina com pH e suporte nutritivo correto). É, por exemplo, o caso real de Tyler Plotkin, um bebê americano de um ano e alguns meses que teve um dos hemisférios cerebrais completamente removido numa operação cirúrgica chamada hemisferectomia. Aos 5 anos, então em 2009, seus pais diziam que Tyler levava uma vida praticamente normal. Diversos outros casos são documentados na literatura, sobretudo de hemisferectomias resultantes de tratamento de epilepsia. Esses casos nos levam a crer que, no futuro, quando dispusermos da técnica cirúrgica necessária, seremos capazes de realizar transplantes de hemisférios cerebrais. 

Há, contudo, um violento paradoxo: se, nesse futuro distante, o hemisfério cerebral de Tyler removido fosse colocado, digamos, num corpo sem hemisférios cerebrais para que os médicos pudessem seguir investigando as causas de sua epilepsia, poderíamos afirmar que Tyler, enquanto pessoa, ou entidade mental, teria sua existência duplicada (ou ramificada)? Chamemos o Tyler original de "Tyler A" e o novo Tyler de "Tyler B". Provavelmente há alguém pensando que, ainda que fossem a mesma pessoa num pequeno lapso de tempo, as novas vivências fariam resultar duas pessoas numericamente distintas. Contudo, mesmo com essa objeção, precisamos admitir que em algum momento, por pequeno que seja, quando ambos os Tyler's acordaram da cirurgia, eram exatamente a mesma pessoa. Mas como é possível que uma única pessoa possam ser duas? Enfim, o barraco teórico estava armado.

Vale dizer que os filósofos da identidade pessoal não se restringem ao exemplo da hemisferectomia. Há outros exemplos diversos, tais como do teletransporte falho, da cópia de mentes, da junção cerebral e etc. O que todos esses exemplos querem dizer é que ser idêntico a si mesmo ao longo do tempo não é tão óbvio assim: deve existir algo, ou uma causa, que nos faça persistir temporalmente. Mais do que isso, os filósofos da identidade pessoal também pretendem encontrar uma solução, ou um critério, para sabermos quando a existência de uma pessoa tem início e fim. Indo mais longe: também se perguntam, como Eric Olson, se importa que "eu" ou "você" existamos como pessoa ou como alguma outra coisa. Também há a afirmação de Derek Parfit de que "a nossa identidade ao longo do tempo não importa". Estranho? Isso é porque estamos apenas no território filosófico da identidade pessoal ao longo do tempo. Vizinha dessa mesma querela está a problemática que a filósofa Lynne Baker e o filósofo Barry Dainton anunciam, a saber, o que somos fundamentalmente?

Dissemos acima que o problema da identidade pessoal não é uma questão de identidade social, cultural, mas sim de identidade metafísica. E o que é metafísica? Grosso modo, é 1) o estudo da realidade para além da subjetividade contida nos modelos de explicação; e 2) o estudo da realidade sem a exigência obrigatória de observação empírica. Se, por exemplo, a ciência explica elementos da realidade a partir de previsões atestáveis e apreciação de fenômenos observáveis etc., a metafísica, por outro lado, procura explicar a realidade nela mesma ou independentemente de apreciação empírica - pois nem sempre é possível colocar o alvo de estudo num telescópio ou laboratório. O cientista, como Newton, pergunta-se "como posso prever o momento da queda ou descrever as propriedades mecânicas de uma porção da matéria". O metafísico, por outro lado, pergunta-se o que é a matéria independentemente das propriedades e relações que podemos postular sobre. Isso não deve soar estranho. Por vezes, sobretudo quando fazem especulação teórica, os físicos, biólogos e químicos são metafísicos, dado que não possuem, segundo as exigências científicas modernas, acesso empírico ao objeto de estudo - por exemplo, as deduções teóricas que tentam fazer a respeito do interior dos buracos negros. Quando estamos diante do problema da identidade pessoal temos um obstáculo semelhante aos buracos negros que nos coloca em território metafísico: não há como ter acesso empírico à mente das outras pessoas. Logo, temos de tentar deduzir os critérios de identidade pessoal ao longo do tempo.

Como não queremos alongar muito o texto, pois vamos dividir nossa discussão em diferentes "capítulos", iremos agora ver apenas uma das teses propostas do problema. Para tanto, é oportuno iniciarmos com um exemplo famoso na literatura sobre a identidade pessoal: o príncipe e o sapateiro. Este tipo de "experimento de pensamento" foi desenvolvido pela primeira vez por Locke em seu Ensaio. Trata-se de buscar mostrar que o critério para a identidade pessoal ao longo do tempo é a memória. Assim, parafraseando Locke, ele diz: se, porventura, a alma de um príncipe, junto às suas memórias e demais atributos mentais, passasse a habitar o corpo de um sapateiro, estaríamos dispostos a admitir que o sapateiro será agora, enquanto pessoa, o príncipe, ainda que, como homem, continue a ser o sapateiro. Nessa experiência mental, Locke quer distinguir o ser humano da pessoa. Em outras palavras, um ser humano particular não é uma pessoa. A pessoa, segundo Locke, é determinada pelos seus atributos mentais, em especial a sua memória, independentemente do seu corpo ou indivíduo de uma espécie particular. O que nos faz ser a mesma pessoa de ontem, portanto, não envolve a nossa continuidade espaço-temporal ou física, mas sim a nossa continuidade mental. Se formos capazes de lembrar das nossas vivências ou estados passados, então a nossa identidade se prolonga tão longe quanto se prolongar a nossa memória.

Como consequência, uma pessoa num dado momento é a mesma num momento futuro, segundo Locke, se esta é capaz de recordar das vivências daquela, não importando o que mais mude. É um critério simples, que dispensa sentenças ceteris paribus, e que parece, a princípio, satisfazer nossa intuição. De fato, essa intuição foi o alicerce das teorias contemporâneas mais famosas, tornando-se um ponto de passagem quase que obrigatório nos debates filosóficos acerca da persistência pessoal. Ademais, a tese de Locke é a “ancestral” de todas as teses que dispensam a identidade de uma substância, seja ela imaterial ou material. Os critérios de pessoalidade, bem como de sua persistência, estão, portanto, para além de um substrato específico ou geral, dependendo apenas de características psicológicas. Isso significa dizer que uma mesma mente, se entendemos a mente como algo a mais para além dos fenômenos psicológicos, pode abrigar diferentes pessoas. Para tanto, basta que os eventos mentais de uma mente particular possua continuidade mnêmica (ser capaz de recordar ações ou experiências) com uma outra pessoa num outro momento.


Mais uma implicação do critério mnêmico de Locke nos chama a atenção. Pense, por exemplo, em pessoas com doenças neurodegenerativas como o Alzheimer. Em geral, a despeito dos esquecimentos, não estamos disposto a dizer que um familiar com Alzheimer deixou de ser o nosso familiar. Mas diríamos o mesmo, contudo, se esse mesmo familiar perdesse toda a memória de vivências passadas? Se ele esquecesse de tudo aquilo que viveu para além dos 5 anos atrás imediatos, ainda estaríamos disposto a assumir que é a mesma pessoa? Outro problema: por não nos lembrarmos da nossa infância com dois anos de idade diríamos que o menininho ou menininha do álbum de fotos não somos nós? Retrocedamos ainda mais: não já fomos um bebê? Um feto? Quando, segundo o critério lockeano, nossa existência enquanto pessoas no mundo se iniciou?


- Benny

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