Pular para o conteúdo principal

Fenomenologia dos Estados Alcoolicos: a ressaca.


Por Benilson Nunes

Fenomenologia quer dizer, stricto sensu, estudo dos fenômenos ocorrentes. Para isso, pressupomos um sujeito presente, ou melhor, um sujeito que tem a experiência do fenômeno. Sendo assim, não estamos falando da experiência realizada pelo cientista, mas da experiência comum, sensitiva, experiência de qualquer coisa. Mais ainda, é importante saber que experiência e fenômeno,  dentro de um viés psicológico, são uma única e mesma coisa, sendo diferente, apenas, o objeto que suscitou a experiência ou fenômeno psicológico. Por exemplo, não se deve confundir a experiência da cor de uma maçã com a própria maçã. Nesse sentido, podemos definir a fenomenologia como o estudo objetivo das experiências, isto é, são as próprias experiências o objeto de pesquisa. Bom, mas quais experiências nos chamam a atenção para reflexão?

Antes de mais nada, na tradição filosófica experiência quer dizer, sobretudo, experiência mental. Assim, temos experiências mentais de cores, sabores, odores, angústias, dores etc. Mas também temos experiência de nós mesmos (self-experience como chamam alguns filósofos analíticos), experiência epistemológica (por exemplo, a fenomenologia hegeliana acerca do conhecimento) e muitas outras. Há, também, a fenomenologia mais consagrada, como a de Edmunt Husserl, de onde se derivou a fenomenologia existencialista. Vale também mencionar a "fenomenologia" dos dados imediatos da consciência, como a de Henri Bergson. Enfim, há diversas fenomenologias, cada uma com o seu método e pressupostos metafísicos. Aqui usaremos, brevemente, o método de perspectivas fenomenalistas da filosofia da mente. Faremos, portanto, exatamente o seguinte: tentar descrever, em caráter puramente qualitativo, as experiências mentais (perceptivas, psíquicas, sensitivas) dos estados alcóolicos. Nesse texto, especificamente, falaremos da ressaca.

Quando se fala de ressaca, fala-se, principalmente, sobre as suas características, ou experiências, de ordem fisiológica: boca seca, enjoo, diarreia, tontura, falta de apetite, cefaleia, etc. Contudo, observo que os efeitos mais abalantes da ressaca são muito mais de ordem psicológica que fisiológica. Fármacos e remédios caseiros, inclusive, dão conta de aliviar muito dos efeitos fisiológicos, mas os efeitos psicológicos persistem e são, talvez, piores que os efeitos fisiológicos. Há algo nos metabólitos resultantes da metabolização hepática do álcool que afeta, especificamente, o córtex cerebral, produzindo outro plano de fundo para os estados psíquicos corriqueiros - alguns autores fenomenalistas chamam esses estados de "sentimentos de franja" (fringe feelings). Por exemplo, ficamos "aereos", isto é, nossa atenção se torna frágil e custosa, prejudicando nossas tarefas diárias. Além disso, há, em toda a percepção do corpo, um estado de fraqueza muito mais que física, pois nos sentimos fracos num sentido também figurado, de impotência diante do mundo. É por isso, assim acredito, que os cobertores se tornam nossa caverna. E quem experimenta acender um cigarro nesse momento verá esse quadro psicológico piorar. E se formos mais a fundo, o nosso estado psíquico revelará coisas mais interessantes.

O que chamam de "ressaca moral" não é, rigorosamente, um sentimento de imoralidade quanto ao dia anterior. O que a ressaca promove psicologicamente sobre isso é o sentimento de imoralidade pura. Os fatos do dia anterior são, muitas vezes, normais. Sim, de fato, ocorre de termos feito coisas vergonhosas e etc. Contudo, muitas vezes não fizemos nada demais e, mesmo assim, o sentimento de imoralidade quanto a coisas comuns surge, e surge com força, a depender do volume de álcool ingerido. Estabelecer, racionalmente, que fizemos nada demais não é suficiente, não adianta. Uma vez que estejamos de ressaca, quase qualquer coisa serve para promover sentimento de culpa e vergonha. Se retirarmos uma imagem de culpa da cabeça, outra certamente virá, mesmo que seja nada demais. Eu diria, metaforicamente, que é o castigo cristão por excelência: sentir culpa independente do que tenha ocorrido. Isso, por si só, é muito curioso e, correndo o risco soar um exagero retórico, parece ser um castigo criado por um agente intencional no mundo (os criacionistas poderiam usar essa ficha).

Ora, mas se fosse só isso eu nem estaria escrevendo esse texto, pois bastaria tomar umas doses e ir pra gandaia de novo que resolvia (pelo menos por esse dia). Enfim, a ressaca provoca ainda outra coisa: depressão. E não é uma depressão comum, pois eu desconheço a experiência da depressão que vem no laudo psiquiátrico. Trata-se de uma depressão que se confunde com pânico, terror. E se, no dia anterior, você ingeriu álcool concomitantemente com outras drogas, essa característica aterrorizante da ressaca se multiplica (principalmente com drogas consideradas não-depressivas, como ecstasy e cocaína). Há também, junto a isso, um certo aperto no peito, como de angústia, como se alguém tivesse morrido. Lembranças passam a ser evocadas involuntariamente. Imagens entram em nossa cena mental sem pedir nenhuma permissão e persistem. Logo que você tenta não ficar tão introspectivo, você passa a perceber um mundo em "cores frias". Parece que toda a culpa do mundo caiu sobre os seus ombros e que a qualquer momento um demônio entrará pela janela. Se fosse me dado a tarefa de nomear esse aspecto mais pesado da ressaca eu intitularia "estágio de terror depressivo". 

Não bastando, e considerando um volume ingerido de álcool maior ainda, o seu estado global de humor se torna volátil. Às vezes, o subir e descer escadas, ou algum outro exercício físico, te levanta o estado de espírito, isto é, alivia o sentimento de terror e culpa, mas logo que você se deixa ficar introspectivo, os pensamentos de tormento voltam, todo o processo recomeça. E essa volatilidade é rápida, abrupta e com muitos ciclos. Com isso, muitas vezes, eu me pego dizendo em voz baixa "já chega, não aguento mais", o que soa até engraçado, pois uma auto-resposta canalha também surge: "pra que eu fui beber tanto?". Você pode até pensar em se matar, mas até isso provoca medo. Você tem medo de tudo. E quando acha que esse estado mais pesado está melhorando, você teima em acender outro cigarro e tudo recomeça. Por isso, fico inclinado a dizer que os não-fumantes possuem ressacas relativamente mais leves, com menos enjoo e volatilidade psicológica.

Uma maneira que eu encontrei de aliviar estados mais intensos é com a companhia de alguém. Por isso, recomendo que quem experiencie esses estados mais profundos vá a encontro de algum amigo/a. A outra maneira é, paradoxalmente, aprender a aceitar e trabalhar esses estados a fim de poder distraí-los por conta própria. Seja como for, rápido não vai passar e exige-se certo esforço se não quiser ficar preso/a debaixo dos cobertores. Tal é a reza da cachaça.

Benny

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O Uso Público e Privado da Razão

“Denomino uso privado aquele que o sábio pode fazer de sua razão em um certo cargo público ou função a ele confiado. Ora, para muitas profissões que se exercem no interesse da comunidade, é necessário um certo mecanismo, em virtude do qual alguns membros da comunidade devem comportar-se de modo exclusivamente passivo para serem conduzidos pelo governo, mediante uma unanimidade artificial, para finalidades públicas, ou pelo menos devem ser contidos para não destruir essa finalidade. Em casos tais, não é sem dúvida permitido raciocinar, mas deve-se obedecer.”

“[...] Entendo, contudo sob o nome de uso público de sua própria razão aquele que qualquer homem, enquanto sábio, faz dela diante do grande público do mundo letrado.” (Resposta à pergunta: O que é o Esclarecimento - Immanuel Kant)

É bem possível dizer que Kant, quando escreveu “Resposta à Pergunta: Que é Esclarecimento?”, ele estava exercendo seu saber dentro dos limites do condicionamento do uso privado da razão. Ora, esta idéia de …

Canais Iônicos e Potencial de Repouso

Na membrana das células neuronais estão, além de outras proteínas de membrana, os canais iônicos. Estes canais são proteínas de membrana integrais, isto é, atravessam a membrana de dentro a fora (KANDEL, 2003). Sua função crítica está em produzir alterações rápidas da diferença de potencial elétrico, levando informação a longas distâncias, tais como outros tecidos e órgãos (YU et al., 2005). 
Havendo uma mudança no potencial elétrico ao longo da membrana, ou mesmo quando da presença de um ligante ou estímulo mecânico, estes canais sofrem mudanças conformacionais, permitindo a passagem seletiva de íons através deles (YELLEN, 1998). A passagem de íons através dos canais iônicos se dá de forma passiva, isto é, sem gasto de energia, segundo o gradiente químico favorecido: onde há, por exemplo, menos potássio tende-se a receber mais potássio. Contudo, no amplo mosaico de proteínas da membrana, se sabe também da presença uma outra classe de moléculas especializadas semelhantes aos canais iôn…

Black Mirror não é s/ tecnologia, nem s/ o que há de pior em nós: é sobre filosofia.

Nas últimas semanas me deparei com dois textos: um que atribuía a temática "tecnologia" e outro que atribuía a temática "sobre o que há de pior em nós mesmos" acerca do seriado Black Mirror.
Considero essas atribuições uma negligência grosseira, uma vez que desconhecem o que filósofos fazem, pelo menos, desde Descartes - ou até antes. Trata-se do que chamamos em filosofia de "experimentos de pensamento" (ou thought-experiment, como foi cunhado pelos filósofos de língua inglesa). Os experimentos de pensamento são uma poderosa ferramenta epistemológica presente em muitos argumentos filosóficos, sobretudo aqueles de teor metafísico. Grosso modo, são casos imaginários conjecturados a fim de colocarem em teste as nossas intuições. Por exemplo, no caso de Locke, é muito conhecido o experimento de pensamento de trocas de mentes do Príncipe e o Sapateiro, onde a intenção é forçar nossas intuições acerca dos critérios metafísicos de identidade pessoal.
Locke, con…